O João diz-me que googlou "como saber se estamos numa revolução"... e nada.
As traças não vão à bola com a naftalina.
Astrónomos anunciaram ontem a entrada, pela primeira vez, na Via Láctea, de um planeta imigrante, vindo de outra galáxia. A entrada do HIP 13044b vem mostrar a importância de que os SEF portugueses passem a tutelar as fronteiras intergalácticas com o mesmo fervor com que controlam as portuguesas no âmbito do plano de segurança para a cimeira da NATO.
Quanto mais jogos Paulo Bento ganha, mais Carlos Queiroz precisa de um dos quatro blindados Cougar que vão chegar à PSP e que têm protecção balística, protecção contra engenhos explosivos improvisados e atingem uma velocidade máxima de 120 quilómetros/hora.
gritava o povo enfurecido, enquanto (logo depois do golpe de estado) degolava o líder deposto.
*José Saramago
A sra. J. chamou a sua família para jantar, mas ninguém apareceu. Abriu, então, o seu PC, perdão, o seu Mac, na cozinha: entrou na caixa de comentários do blogue do marido e comentou "Vem jantar!"; abriu o Facebook e escreveu no mural do filho "Vem jantar!"; abriu o Messenger, enviou à filha um toque e a mensagem "Vem jantar!". Quando, dois minutos depois, todos se sentaram, disse "Descarreguem o souflé; a sobremesa já não é muita, façam copy paste".
Ainda em relação ao cânone, e pensando por exemplo em Gabriel García Marquez, André Bernardes escreveu pouco: dois dedos de livros (isto em unidades de medida de conversa). Ao contrário do mestre colombiano, o fantástico pouco assoma na sua obra: prodígios só mesmo os humanos.
*Dra. Temperance Brennan
E em relação ao cânone? Podemos afirmar que André Bernardes não foi um Hemingway: ninguém se atreve a adivinhar-lhe uma biografia através das suas obras, nem ninguém seria capaz de lhe supor uma obra partindo das parcas informações biográficas. Uma semelhança relevante: ambos se suicidaram, embora no caso do autor português esta informação ainda não tenha sido confirmada. Uma diferença não menos relevante: da leitura dum romance de André Bernardes sai-se relativamente sóbrio.
Houve, é certo, em uma ou duas revistas literárias relativamente desconhecidas, tentativas de ler, no romance Sob as pedras da calçada, a praia, pormenores biográficos, mas como um desses artigos colocava A. B. nas revoltas estudantis de Paris e o outro colocava-o na Universidade de Berkeley, nenhuma das hipóteses foi levada a sério. Além disso, esse quarto romance desenrola-se durante a Guerra da Crimeia e a expressão sob as pedras da calçada, a praia parece referir-se, simplesmente, à pequena localidade, central na obra, cujas frágeis habitações tinham sido construídas sobre a areia de uma das inúmeras baías da Crimeia. Entretanto, na blogosfera, corre que A. B. nunca esteve nem em Paris, nem na Califórnia, nem na Crimeia.
Sobre André Bernardes se escreveu, por estes dias, que há poucos dados biográficos porque o autor sempre procurou proteger a sua privacidade, mas a questão é que, aparentemente, ele não tinha biografia, se exceptuarmos a casa caiada, os coentros e os medicamentos (nos últimos anos da sua vida); todos juntos não servem para construir uma tábua que se veja – uma de acontecimentos irregulares e notáveis.
Morreu o escritor André Bernardes, que também publicou livros – em número consideravelmente menor – como Domingos Rebelo, João da Silveira e Josefa Gresbante. Nos meses que antecederam a sua morte foram concluídas traduções da sua obra em onze línguas diferentes, uma dissertação de mestrado sobre a predilecção do escritor – na criação dos seus pseudónimos – por nomes de pintores portugueses do séc. XVII e duas teses de doutoramento: uma sobre a presença da memória nas primeiras obras e outra sobre a identidade nacional nos últimos romances publicados.
André Bernardes, que na verdade se chamava António Reis, passou os seus últimos meses de vida a caiar uma pequena casa que tinha à beira-mar, a tentar que os coentros que insistia em semear no seu quintal vingassem, a escrever o seu 18.º romance e a iniciar um novo tratamento para artroses, que incluía ibuprofeno, diclofenac, sulfato de glucosamina (na dose diária de 1,5 gramas) e hialuronato de sódio (em pequenas doses difíceis de quantificar).
Desapareceu da minha conta Dropbox um concerto n.º 3. Na última vez em que foi visto vestia um fato azul com finas riscas brancas, circulava a grande velocidade e era conduzido por Sequeira Costa. A quem o encontrar pede-se o favor de mo devolver. Sofre de perturbações musicais.
Está uma tarde muito quente. Talvez fechem as casas, as encham de água e as transformem em aquários gigantes que se vejam do céu. Era bonito! Sentava-me, com gosto, no telhado da minha, e passava os dias a dar de comer aos peixinhos. Também podia oxigenar-lhes a água, agitando-a com os pés.
Quanto a dias, estamos assim: a passá-los. E passamo-los, e passamo-los e passamo-los.
O homem vai a todos os espectáculos do teatro da sua cidade e em todos, sem excepção – musicais, teatrais, de dança... –, adormece. Cabeça ligeiramente tombada – com mais frequência para a frente do que para trás – assim permanece grande parte da noite.
Ouvir os outros, mesmo quando se repetem, é uma bênção, sempre é uma variação das nossas repetições.
e o meu amigo sangue azul disse: agora é que deus se vai vingar...
O homem passara anos a coleccionar chaves num quarto onde ninguém podia entrar. Quando morreu e a sua viúva, por fim, entrou no aposento, encontrou, surpresa, uma chave apenas. O espírito deste coleccionador não era o de juntar mas o de se autocorrigir. Uma nova chave era adquirida graças às propriedades a, b e c e, assim, substituía a anterior que só tinha as propriedades a e b e que, por sua vez, já substituíra a chave com a única propriedade a (isto para reconstituir o início da colecção).
Querer compreender a natureza humana é como querer medir o cosmos com um sistema de medida como os metros ou as milhas.
A surpresa precisa de espaço, se não houver espaço, ela não entra. É volumosa, sonora e gosta de protagonismo. Correcto: é de uma família oposta à da memória. Quando uma memória vem na sua direcção, a surpresa muda de passeio. Como é mais rápida, fá-lo antes que a memória levante a cabeça e a veja.
O peregrino – ou outro homem que viaje – vai à procura da surpresa, mas só a encontra se disser não era nada disto que eu esperava encontrar.
O pensamento que espera é da família (amaldiçoada) das expectativas e o pensamento que encontra pertence à família (feliz) dos reconhecimentos. Um sinónimo de expectar é distrair-se e um de reconhecer é encontrar-se.
São muitas as razões que te levam a partir. O teu corpo vai ser uma extensão do teu pensamento e há-de fazer o que pensares, sem querer saber a razão. Se (numa brincadeira de crianças) perguntares quem nasceu primeiro – o corpo ou o pensamento –, a resposta é óbvia porque as ideias têm corpo (um corpo temporal), mas o corpo não tem ideias (nem conteúdo, além da máquina bem oleada).
Regressa a casa mas há muito mais razões para voltar a partir do que para ficar. Ficar manifesta-se na mala aberta, no chão, à espera de que as coisas que lá estão desapareçam em gavetas. Pensar isso é já começar a ficar. Só começamos a ficar quando partir era tão fácil.
Hoje, finalmente, as visitas aos amigos. As visitas sao eus fracos de cada pessoa. Eu forte (também denominado eu concentrado): estar em casa, estar sozinho, estar a pensar. Eu fraco (também denominado eu distendido ou em gravitação): sair, visitar, viajar. Como se vê, fraco não é usado depreciativamente e o ideal atinge-se no equilíbrio entre eus fortes e eus fracos, sendo que se coloca o problema de onde fazer recair a cesura.
Hoje andei a apagar os vizinhos extintos e a regar os que me pareceram estar em vias de extinção. A nossa percepção do que já está extinto ou ainda pode vir a florescer é essencialmente ditada pela fé que temos na ciência.
Afinal hoje fiquei-me pelas janelas e pelas cartas, sem tempo para mais.
As janelas tinham muitas novidades, em três semanas muita coisa muda de forma profunda. Nem sempre as novidades nos entram em casa pela televisão ou pelos jornais, neste caso entraram por janelas, toda eu olhos e narinas. Não percebi nada do que vi, mas fiquei presa, esquecida dos restantes afazeres. Nem sempre o que não se percebe nos desinteressa, às vezes alivia-nos.
Quanto às cartas, uma desilusão, nem uma ridícula.
Amanhã as plantas ou os vizinhos.
Acabo de regressar de mais uma viagem, foi só mesmo entrar em casa, pousar o correio que se juntou na caixa, ligar a luz no quadro e aqui estou a escrever isto, em pé. Lista de tarefas para amanhã: Abrir janelas e cartas; Regar plantas; Cumprimentar vizinhos; Visitar amigos; Limpar e encher o frigorífico. O meu professor de yoga tem razão: se tirássemos quinze minutos de férias todos os dias, não precisávamos de tirar umas semanas por ano. Vou já tirar os quinze de hoje.
Investigação jornalística revela que as agências de rating norte-americanas consideraram que o Benfica não ia conseguir cumprir o seu compromisso de vencer o campeonato e atribuíram-lhe uma nota entre o Insuficiente e o Suficiente menos (durante um jogo de King).
O regime estava muito desvalorizado e ainda por cima não havia rei para regicidar.
Praticamente desconhecida no seu país, Eugénia Freitas foi uma das melhores cantoras do seu tempo. Primeiro, venceu todos os concursos da sua escola, depois, os da sua cidade, em seguida, os do seu país e, finalmente, vencidos os seus semelhantes, aceitou corajosamente participar num desafio que incluía os melhores canários e rouxinóis do mundo. Veio a perder a voz num desafio contra um EWI 4000S.
No café todos falam de rating e de bancarrota; no breve silêncio que se faz ouve-se um homem a errar a pergunta dos 50 euros porque responde que em Portugal os táxis são pretos e brancos; ninguém quer saber das suas razões – riem-se e regressam às preocupações sérias e às discussões que os fazem ver a vida com outras cores por estes dias.
Aqui nisto
Ali naquilo
Aqui em mim
Ali em ti
Aqui na carta
Ali no carteiro.
A perfeição não se encontra, colecciona-se.
Ainda não sabe como tudo aquilo aconteceu. Fechou o livro, adormeceu e, no dia seguinte, quando voltou a abrir o livro, as letras não estavam lá. Procurou-as entre os lençóis, debaixo da cama, por todo o lado, nada, as páginas estavam em branco.
Quando saiu de casa, viu-as, finalmente, a escorrer num muro branco e a ser lidas, inpudentemente, por todos os habitantes da cidade.
Aviso aos leitores: não leia este post com os olhos, leia-o com a voz de que é capaz.
Túnel
Túúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúú
nel nel neeeeeeeeel neeeeel neeel
Estamos num túnel
Onde estás tú-nel?
Num túnel tudo se amplifica
tudo ganha grandeza
e contornos de eternidaaaaaade
Estamos num túnel enquanto há túnel
para estar
estamos num túnel até ao fim
até à luuuzzzzzzZZ
Quando todos os seus amiguinhos iam para a praia, ele, que estava proibido de apanhar sol, passava os dias na rua a atravessar passadeiras. Pôr o pé na passadeira quando o semáforo estava quase a abrir para os peões, retroceder um passo, avançar dois, medir, hesitar, avançar... era o que mais se aproximava dos passos que dava à beira-mar, provando as ondas. No final do dia a mãe dizia-lhe Vamos, já chega de água.
A luz cai, forte e amarela, em cima do palco, à procura de um ponto de apoio. Não o encontra no palco, nem no seu fundo, nem no corpo do pianista, nem no piano, pois todos se acompanham no negro. Escorre então para as mãos do pianista e aí pára, encontra terreno vigoroso onde se espraiar, se exprimir e se multiplicar na imagem que delas o piano reflecte. É feliz durante todo o tempo que dura o concerto até ao momento em que este termina e ela volta a subir para desaparecer na sua toca.
Era um daqueles dias em que sentia uma sede muito fonte e uma vida muito redondilha maior.
Cansadas, as nuvens pedem aos vulcões que agora chovam por elas e que espalhem as suas cinzas pelo céu de forma a que os voos dos aviões cessem e elas tenham algum silêncio.
Ao homem que, indo já os amigos a alguma distância, continua por inércia a sorrir à porta de casa (favorecendo mesmo assim quem passa) também deves sorrir; não sabes se ele te sorri por necessidade dele ou por necessidade tua.
Com o advento da Primavera, a lagartinha pôs-se ao fresco, vindo a ser a locatária da segunda folha da alface, a contar de fora.
Acordou sobressaltado com um ruído que tanto podia ser de dedos a tamborilar numa pele como de uma aranha a correr pelo quarto. Um ruído saltitante e ritmado que crescia, diminuía, voltava a crescer, voltava a diminuir.
Acendeu a luz: o chão do seu quarto estava transformado num mosaico de meia dúzia de adufes gigantes (cada um feito da pele de uma só vaca) e por cima deles dançava o seu coração em perfeito concerto. Sorriu, aliviado. Nada alegra tanto um homem como ver o seu coração em festa.
A formiguinha chega junto de sua mãe e pressurosa exclama:
– Em tudo o que nos ensinaram sobre a Primavera – calor, flores, lagartas pavorosas – só uma coisa ainda não foi verdade: o amor ainda não chegou.
Quando os homens não suportam a luz, enterram-na. Soterrada, porém, a luz incendeia-se e atinge, incandescente, os corações dos que a enterraram. Qualquer homem sensato sabe que se quer matar um animal deve destruí-lo; emparedá-lo apenas serve para o fortalecer e o fortalecimento da presa há-de ser a fraqueza do predador.
Quando dois homens lutam, é difícil dizer se o que ganha o faz porque ganha ou o faz porque o adversário perde. Não, não são duas faces da mesma moeda, são dois mundos distintos. Perguntem a um e a outro, no final do combate, como se sentem; verão que nenhum deles menciona o outro ou sequer pensa nele, as lutas travam-se no interior de cada um, estando eles alheados de tudo o que é externo – o adversário está fora, ainda que mesmo em frente.
O mesmo se pode dizer do amor. Quando um homem se levanta da mesa do café, cansado de esperar, terá sido ele que desistiu de esperar ou terá sido a mulher que desistiu de vir?
Num caso e noutro era útil que existisse um relógio, mundial, para registar com precisão o momento em que o homem deixa de lutar e passa a perder, o momento em que o homem continua a lutar e passa a ganhar e o momento em que o homem e a mulher desistem de acreditar; um juiz verificaria qual o segundo primordial e quem ditou a sorte das coisas.
Tinha um desejo: que a vida parasse por umas horas (coisa pouca, coisa para ir tomar um café e voltar, descansar um pouco, ler um jornal, falar com um outro conhecido que encontrasse no caminho para a padaria, logo de manhã (mudariam de passeio à procura de sombra (estaria muito sol), aconselhar-se-iam tipos de pão, perguntariam como estavam (estariam bem) e só quando, na despedida, dissesse um provérbio (isso, um provérbio, assim, atirado, um belo e redondo provérbio), iria perceber que aquilo não estava a acontecer de facto (nunca dizia provérbios), mas aí já seria tarde demais, o bem já estaria feito).
Se comprar uma casa fosse apenas comprar um sítio para viver, já teria tomado uma decisão.
Ao longo da sua vida viu milhares de casas, tomando como base de cálculo a média de uma, duas por semana. Quando alguma lhe agradava, voltava lá e tirava medidas. Quando alguma lhe agradava num nível de agrado superior, pedia à agência imobiliária para passar lá a noite – não que acreditasse em energias ou vibrações, mas era muito importante conhecer os ruídos e os ritmos do prédio. Uma vez chegou a alterar a morada em todos os seus documentos pessoais e junto de todas as instituições que lhe escreviam (desistiu do negócio em semanas).
Nunca chegou a comprar casa nenhuma e durante a sua longa existência viveu apenas em duas: na dos pais e na que os pais lhe compraram.
Se comprar uma casa não fosse comprar a própria pele e músculo de que somos feitos, a carne, o osso, o espelho, já teria tomado uma decisão. Assim era difícil. Não há de nós à venda em quantidade suficiente e a preço acessível. Restava-lhe passar, com o entusiasmo e a esperança de sempre, para a casa seguinte.
Já foi .recomeço pó fim começo engano
céu terra
estrela encantamento
pele inferno
degrau perdição
janela prisão
telha luz
manhã rio canção caminho túnel noite
O homem pecador sai de casa a correr, atravessa a rua a correr, protege-se com o jornal mas este logo se rasga, protege-se com as mãos mas em breve fica com elas em ferida, abriga-se nas portadas dos prédios mas os habitantes das casas e os donos das lojas enxotam-no, não querem o chão sujo de sangue, as pedras caem-lhe em cima violentamente e vão-lhe ferindo o corpo e a cara, ele entra num carro mas uma pedra enorme destrói-o, entra num rio mas as pedras atravessam a água com facilidade, entra no mar mas este abre-se em dois, vê Deus, suspira de alívio, bate palmas desenfreadamente e sorri com a parte do rosto que ainda movimenta – qualquer homem desesperado a pedir ajuda é patético – mas Deus desaparece-lhe tão subitamente quanto apareceu, o mar fecha-se, a seguir evapora-se, no areal agora deserto apenas as pedras continuam a cair e ele duvida que Deus lhe tenha aparecido, cada um tem a verdade que merece.
Tinha uma imaginação tão prodigiosa, tão prodigiosa, que quando ouvia uma boa ideia achava que era sua.
Todas as coisas, uma a uma, o abandonaram, até já só restar o fóssil.
50 mil anos depois, percebeu, finalmente, a razão de ser de tanta solidão e de como lhe estava, afinal, guardado um destino maior.
Esse rio que vai lento
espreguiçando-se a teus pés
não traz nunca a mesma água
não volta nunca para trás
Já não é o mesmo rio
e nem uma das suas ondas
voltará para a nascente
Não te prendas a uma onda qualquer
que a teus pés venha morrer
Enquanto o teu pé estiver
dentro dessa mesma água
Muitas outras novas ondas
junto dele irão morrer
Na cidade onde eu vivia
sempre tão cheia de gente
se bem que ninguém lá fique
é costume ouvir cantar
Uma cantiga que fala
do fluir das coisas que há
neste mundo, e assim começa
Não te prendas a uma onda qualquer
que a teus pés venha morrer
Enquanto o teu pé estiver
dentro dessa mesma água
Muitas outras novas ondas
junto dele irão morrer

Eu não digo que não quisesse correr se ao menos tivesse pernas
mas sabem que não tenho e, parecendo que não, isso muda tudo.
Dizendo isto eu não digo que não tenha pernas de todo,
o que eu não tenho é das boas, das que correm a bom correr, como se diz.
Diz-se isso e até se diz mais, diz-se que quem corre por gosto não cansa
e outras verdades igualmente belas e certamente ditas
por quem tem duas boas pernas.
Sempre corri violentamente mas elas sempre me ficaram para trás
atulhadas de lixo ou naufragadas nalguma poça.
Mas é cedo, ainda. É sempre cedo para se ter o corpo certo,
aquele que faça aquilo que nós queremos que faça.
Vamos ver se me crescem outras, melhores, ou se se
fortalecem estas, enquanto ainda me pertencem.
No deserto o tempo esteve quase sempre escaldante.
Os sons chegavam-nos abafados, soprados
como se proviessem de muito longe
(de corpos inclinados para a frente, a flutuar)
e batiam-nos na cara em baforadas leves e encorpadas.
Comemos raízes e bebemos uma água barrenta durante dias.
Dormimos, enrolados em lençóis, em cima da terra
à procura da humidade, escondida, do mundo.
É provável que numa noite os astros nos espreitassem
conjurando sobre o nosso destino
porque o que é certo é que acordámos
e estávamos tão mortos quanto se pode estar
pelo que nos é dado conhecer, que não é muito.
Poderíamos falar de escutas, assunto na ordem do dia.
Poderíamos falar de escotilhas, assunto na ordem do mar.
Poderíamos falar de partilhas, pastilhas, sintonias, equívocos e até de cabos eléctricos, como os de Ávila.
Poderíamos dizer tanta, tanta coisa.
Trouxe-vos fotografias da viagem.
Depois da experiência positiva de duas caixas com brinquedos de ovos kinder que não ficaram mais de duas horas à porta de casa, decidiu que passaria a deixar no hall do prédio, em vez de as levar para o lixo, coisas que ainda estavam em bom estado de conservação e aparentavam boa forma. A experiência foi de tal modo gratificante que rapidamente passou a ter uma grelha onde registava o tempo médio que as coisas demoravam a ser retiradas e onde as rotulava – bem de primeira necessidade, utilidade doméstica, roupa... – para poder chegar, um dia, a conclusões que não fossem precipitadas. Em breve conseguiu estabelecer teorias kuhnianas de alto coturno... apenas precisava de que algo de verdadeiramente grande pudesse confirmar ou infirmar as suas proposições. Então resolveu deixar lá o marido; como esperava, ele não ficou mais de cinco minutos sem ser levado – era um excelente partido! – , o obstáculo foi encaixá-lo numa das classes disponíveis: bem de primeira necessidade, utilidade doméstica, roupa... Morreu louca, rodeada de papéis, cálculos e chávenas de chá verde sem encontrar a solução. Quem pratica a caridade com coração impuro não merece outro destino.
O cansaço dos dias presentes esgota as horas mas não o nosso tempo. As coisas tangíveis e tensas vizinham com o teu sorriso, que as dissolve num abrir e fechar de compassos e rege os calendários. Quando pudermos descansar havemos de não parar para continuar a correr – digo-te. Correr é um verbo bom, exprime uma acção que leva tempo, que demora, e que pode ser feita a dois. Já morrer, por exemplo, demora um segundo e morre-se a sós – e só por isso já não me interessa.
– Vê como tudo começa devagar.
– O quê?
– O mundo. O mundo inteiro. Aqui. O mundo inteiro a começar, devagar, vem ver!
– Oh! É assim que os mundos começam?
– Os maiores começam assim, os da viragem. Vê: inteiramente azul, sólido, imenso, a girar suavemente sobre si próprio, não obstante a velocidade estonteante. Dir-se-ia que está desprendido de todo o universo e no entanto tem o universo preso a ele.
São olhos que não querem ser lagos, como na poesia, não querem assistir a naufrágios, nem espelhar o céu. São olhos que querem, antes, ser terra castanha, onde te deites e descanses à sombra das pestanas. Sabes que elas se abrem e fecham para te refrescar e, como ponteiros, marcam os segundos da tua vida que passa.
São olhos que não querem ser lagos, como na poesia, porque não te querem perder neles, querem encontrar-te – não querem ser álcool, querem ser musa.
São olhos que querem ser o que já são.
Pós-invasão: s. f. Descansar depois, vencida a batalha e tomado o espólio. Deixar o corpo adormecer dentro da armadura para não esquecer a beleza do confronto e encostar a cabeça nas ervas finas para adivinhar a maciez do tempo de paz. Sonhar que as estrelas têm contendas em que disputam o melhor espaço no céu, o maior brilho, a maior proximidade da Terra. Acordar e estar entre elas – a cabeça no colo da mais brilhante. (in: Dicionário dos Dias)
Insuportabilidade: s. f. Solo instável, tempo sem densidade, conflito maneirista, dissociação da sensibilidade, premonição de queda, absurdo radical. (in: Dicionário dos Dias)
Estão Deus, S. Francisco de Assis* e um cão presos num labirinto. Deus condenado à sua infinita sabedoria, S. Francisco de Assis ao seu Deus e o cão à sua natureza.
Fora do labirinto, um sino dá o alarme, um berimbau o descontentamento e uma gaita de foles o absurdo e o desconcerto do mundo.
Todos – sejam divinos, humanos, animais ou musicais – estão presos. O que os poderá libertar?
Cicatrizemos juntos, então.
Mas sangremos – antes.
Clara Umbra e Blue E-Bow
E os dois, como velhos continentes, voltaram a juntar-se, misturando montes, vales e rios sob um mesmo céu. Um mar acordou, então, despertado pela convulsão, e só voltou a adormecer quando a lua lhe verteu a sua luz branca e dolente.
O rolo de músicas caiu devagar na água do lago parada há muito tempo. Primeiro, enquanto se aproximava, encantou-a com as sua melodias e fê-la rir com as insuspeitas combinações que as palavras, retiradas das músicas a que pertenciam, construíam. Quando, por fim, tocou a sua superfície, transformou-a em fogo. A água já conhecera muitas coisas belas: as cores dos pássaros, a sombra dos arvoredos, a calma adormecida do estio, o eco das montanhas... mas nada se comparava ao que conhecia agora, que lhe retirava o oxigénio, incendiava o hidrogénio e a revolvia por dentro. A música beijou a água e a água ficou mais doce, mais densa, mais água.
E as músicas? Viram-se espelhadas na água e finalmente reconheceram a sua beleza.
No dia seguinte não conseguia ouvir nada. Estava enjoado de sons, entupido de ruídos. Sentia um eco contínuo a atordoá-lo. Aproximou-se de um lago e puxou de cada ouvido um rolo de músicas: wish you were over the rainbow don't you forget I dye a little... Quando terminou foi como se lhe tivessem nascido orelhas novas.
Porque o amor é isto: um céu de ininterrupto azul e um sol de contínuo calor. Tudo o resto será teoria ou poesia... não é a vida.
Na penúltima carruagem do comboio viajavam os que usavam obsessivamente telemóveis, leitores de música e outros aparelhos electrónicos. Há muito que ficara provado que eram nocivos para a saúde e a Ordem Médica Mundial emitira um conjunto de recomendações que incluía a disposição de todas as pessoas que sofriam de algum tipo de patologia nos meios de transporte públicos.
A antepenúltima carruagem, onde este homem acabou por se sentar, entalado entre uma Alhambra e um Steinway vertical, era reservada a todos os que tinham contraído a mais recente epidemia que assolava a sociedade, uma espécie de demência que os fazia acreditar que eram instrumentos musicais ou dispositivos electrónicos utilizados na música.
Quando o comboio parou na estação e o homem, acompanhando o solavanco da travagem por inércia, se inclinou levemente para a direita, todas as cordas de nylon da vizinha do lado se arrepiaram de prazer.
Ultimamente acontecia-lhe com frequência.
Acordava a meio da noite com a cabeça cheia de palavras, de versos inteiros, de versos partidos, dodecassílabos, se era mais próximo da manhã, apenas um hemistíquio, se ainda era noite.
Levantava-se e andava pela casa, atordoada de sílabas, à procura da palavra certa – se a não encontrava dentro de si – nas lombadas dos livros, nos nomes dos objectos, nos títulos de álbuns, nas imagens da televisão sem som.
Quando amanhecia e saía de casa, ouvia as pessoas falar e não prestava atenção ao que diziam, contava-lhes as sílabas métricas. Todos os sons da rua correspondiam a troqueus, iambos, dátilos e anapestos.
Cada hora passou a ser uma página de um imenso livro onde era urgente escrever mais uma palavra. Cada vez que olhava para fora de si via linhas por encher e cada vez que olhava para dentro de si via palavras por alinhar.
- Dizei, o que quereis?
Diante do rei, a jovem explicou:
- Construir uma máquina que nos permita viver em diversas pistas temporais: o meu tempo será o tempo da minha mãe, e o da minha avó, e o da minha bisavó... e eu continuarei a ser eu, e a filha dela, e a neta dela, e a bisneta dela... Entraremos e sairemos de cada painel do tempo quando quisermos, sem poder alterar, nunca, a história. Olharei para todas elas como agora olho as estrelas e no entanto elas já desapareceram há milhares de anos.
Um dia deixou cair alguns anos na alameda que conduzia a sua casa e os liquidâmbares que no outono passado não tinham mais do que uns palmos douraram a tarde. Falou-se muito de alterações climáticas por essa altura. Procuram-se sempre explicações bizarras para as coisas simples.
O homem subiu à acrópole.
De lá, ouvia todas as tablas do mundo ribombar ao compasso do seu coração.
Via luzes fluorescentes, que tentava seguir com o olhar, mas que se perdiam no meio de datas e de rostos cruzados na memória (ao ritmo das tablas que ribombavam ao compasso do seu coração).
Ouvia também a respiração das frases que tencionava dizer, mas que não chegava a pronunciar, porque se perdiam por entre ecos, reverberações e tablas da memória.
Quando se atirou, deixou de ouvir as tablas para só ouvir a respiração do coração.
Quando o corpo caiu no chão, foi o eco da memória que se ouviu.
Era um homem muito religioso. Oferecia presentes e sacrifícios pessoais a diversos deuses, em troca de respostas, numa estranha hierarquia: pedia a um segundo para a eventualidade de o primeiro não o atender, a um terceiro, para suprir alguma falha do segundo, e por aí em diante. Quando esgotava todos os que conhecia e as suas preces não eram ouvidas, subia ao monte e pedia a um deus desconhecido, receando que houvesse deuses em falta. Ele procurava razões e sentidos e explicações para as coisas. Ora não se pode procurar razões e sentidos e explicações para as coisas. Se se encontra, excelente, procurar não vale. É como procurar uma moeda no chão. Conheço pelo menos cinco pessoas que encontraram dinheiro no chão e nenhuma delas estava à procura, mas todas deram conta de que o tinham encontrado.
Bateram à porta. Há três anos que ninguém o visitava, ninguém o procurava, ninguém lhe telefonava. Abriu. As leis eram claras: pessoa que fique três anos sem que ninguém a reclame é desmontada para peças. Quando as leis são claras e justas não se questionam e ele não era um arruaceiro.
Daqui a 30 anos reformo-me e abro uma livraria chamada Livros Babel.
Adenda ao post: Vá! Sejam simpáticos. Em "libros", troquem o "b" por um "v", mesmo que nos vossos genes esteja inscrita a prática contrária.
Por mais que explicasse que não era uma metáfora, o jovem publicitário foi despedido quando utilizou numa campanha para uma companhia aérea o diletante slogan "Faça a sua família ir pelos ares".
O autor
dá-se
a comer
linha
a
linha.

Frida Kahlo
"Sinto o seu calor e isso chega-me." "Um, dois, três pássaros no céu, tão longe, formigas azuis." "Era bom que o autocarro não viesse, daqui vejo o mundo a passar." "Tudo o que me escapa não me faz falta." "Para quando o amor? Para quando o amor?"
Passara a vida a medir, a talhar, a cortar, a coser. Os fatos de três peças eram os seus preferidos, homem nenhum deveria andar sem eles, dizia, é tão natural como termos cabeça, tronco e membros. E quando dizia cabeça, meneava ligeiramente a cabeça, dizendo tronco, punha-se direito, e, ao pronunciar membros, acenava com as mãos. Achou, pois, natural que a última coisa a que tenha assistido tenha sido, na morgue, aos seus próprios talho, corte e cosedura. O fato que lhe vestiram fora feito por ele, num tecido leve, mas quente, e óptimo para a chuva. Nunca se sabe que partidas nos prega o tempo, às vezes até se acaba sem estarmos à espera, pensou mesmo antes de ouvir a tampa do caixão fechar-se sobre o seu perfeito risca de giz.
Os caprichos editoriais acordaram num mau dia de cabelo. Passam pela circulação alternativa, cumprimentam um post (o mais exótico) e rumam a uma estrada deserta. Só param quando encontram rum e gajos nus.
Este blogue está em circulação alternada: ora passa um post, ora não passa nada.
Beatriz nasceu com quatro dedos numa mão e isso manchou toda a sua vida. Já adulta, quando espetava uma bofetada violenta num aluno, as quatro marcas vermelhas da sua deficiência apareciam em todo o seu esplendor, na face da criança, apenas para a humilhar. Só quando começou a namorar encontrou paz para a sua mácula: quando os seus dois pares de dedos são entrelaçados pelos cinco dedos do namorado, sem dedo que sobeje ou espaço que falte, tudo faz sentido.
– Durante um abalo sísmico, e perante as enormes fendas que se abrem, todas as pernas são curtas e qualquer par de asas é bem-vindo, minha filha. Se tiveres o teu próprio par, não dependerás da bondade de estranhos.

Numa altura em que ora me sinto em baixo de forma, ora em baixo de conteúdo, e em que só me apetece tomar um semicúpio em posição de meia lótus, eis que tenho um bilhete para ver o Brad Mehldau. Deus existe de vez em quando.
Onde estão os anjos?
«Estamos do outro lado do espelho, que é também um espelho» e a verdade esmaga-nos.
A bola traiu o jogador. E não foi a primeira.
Cinco pessoas morreram asfixiadas, ontem, no meu prédio: o sr. António, que é funcionário de uma conhecida empresa de telecomunicações, o sr. Abílio, que não sei o que faz, mas conduz um carro de gama superior, embora importado da Alemanha, o senhor do 5ºD, que não sei como se chama, mas é médico (segundo indicação preciosa dum autocolante colado no para-brisas da sua viatura de gama superior+ adquirida no concessionário local), e a sra. Dolores, que efectua limpezas nas denominadas zonas comuns.
Com Federer X Robredo no Eurosport, como ver Paulo Portas X Jerónimo de Sousa na SIC?