Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010
E o que o google não regista não existe

O João diz-me que googlou "como saber se estamos numa revolução"... e nada.



publicado por Clara Umbra às 20:31
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Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010
Dispersão

Nunca identificamos os dias que fazem a revolução das coisas nos próprios dias, só mais tarde, e só com sorte, vimos a reconhecê-los, o que é estranho porque são os mais ruidosos, talvez andemos muito distraídos.



publicado por Clara Umbra às 23:46
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Domingo, 21 de Novembro de 2010
Inimigos de estimação

As traças não vão à bola com a naftalina.



publicado por Clara Umbra às 20:38
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Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010
From Gagarin's point of view *

Astrónomos anunciaram ontem a entrada, pela primeira vez, na Via Láctea, de um planeta imigrante, vindo de outra galáxia. A entrada do HIP 13044b vem mostrar a importância de que os SEF portugueses passem a tutelar as fronteiras intergalácticas com o mesmo fervor com que controlam as portuguesas no âmbito do plano de segurança para a cimeira da NATO.

*



publicado por Clara Umbra às 13:14
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Quinta-feira, 18 de Novembro de 2010
Metabolismo futebolístico

Quanto mais jogos Paulo Bento ganha, mais Carlos Queiroz precisa de um dos quatro blindados Cougar que vão chegar à PSP e que têm protecção balística, protecção contra engenhos explosivos improvisados e atingem uma velocidade máxima de 120 quilómetros/hora.



publicado por Clara Umbra às 12:01
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Quarta-feira, 17 de Novembro de 2010
"Não tenhamos pressa mas não percamos tempo" *

gritava o povo enfurecido, enquanto (logo depois do golpe de estado) degolava o líder deposto.

 

*José Saramago



publicado por Clara Umbra às 14:10
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Terça-feira, 16 de Novembro de 2010
Workers Playtime

A sra. J. chamou a sua família para jantar, mas ninguém apareceu. Abriu, então, o seu PC, perdão, o seu Mac, na cozinha: entrou na caixa de comentários do blogue do marido e comentou "Vem jantar!"; abriu o Facebook e escreveu no mural do filho "Vem jantar!"; abriu o Messenger, enviou à filha um toque e a mensagem "Vem jantar!". Quando, dois minutos depois, todos se sentaram, disse "Descarreguem o souflé; a sobremesa já não é muita, façam copy paste".



publicado por Clara Umbra às 23:06
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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010
"Não há nada exacto, nem os números são exactos, todo o número é aproximado." *

Ainda em relação ao cânone, e pensando por exemplo em Gabriel García Marquez, André Bernardes escreveu pouco: dois dedos de livros (isto em unidades de medida de conversa). Ao contrário do mestre colombiano, o fantástico pouco assoma na sua obra: prodígios só mesmo os humanos.

 

*Dra. Temperance Brennan



publicado por Clara Umbra às 09:00
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Quinta-feira, 2 de Setembro de 2010
“O Sol e o Rei não se olham de frente” (*)

E em relação ao cânone? Podemos afirmar que André Bernardes não foi um Hemingway: ninguém se atreve a adivinhar-lhe uma biografia através das suas obras, nem ninguém seria capaz de lhe supor uma obra partindo das parcas informações biográficas. Uma semelhança relevante: ambos se suicidaram, embora no caso do autor português esta informação ainda não tenha sido confirmada. Uma diferença não menos relevante: da leitura dum romance de André Bernardes sai-se relativamente sóbrio.

*



publicado por Clara Umbra às 07:40
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010
Sob as pedras da calçada, a praia

Houve, é certo, em uma ou duas revistas literárias relativamente desconhecidas, tentativas de ler, no romance Sob as pedras da calçada, a praia, pormenores biográficos, mas como um desses artigos colocava A. B. nas revoltas estudantis de Paris e o outro colocava-o na Universidade de Berkeley, nenhuma das hipóteses foi levada a sério. Além disso, esse quarto romance desenrola-se durante a Guerra da Crimeia e a expressão sob as pedras da calçada, a praia parece referir-se, simplesmente, à pequena localidade, central na obra, cujas frágeis habitações tinham sido construídas sobre a areia de uma das inúmeras baías da Crimeia. Entretanto, na blogosfera, corre que A. B. nunca esteve nem em Paris, nem na Califórnia, nem na Crimeia.



publicado por Clara Umbra às 08:50
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Terça-feira, 31 de Agosto de 2010
cmd + shift + 3

Sobre André Bernardes se escreveu, por estes dias, que há poucos dados biográficos porque o autor sempre procurou proteger a sua privacidade, mas a questão é que, aparentemente, ele não tinha biografia, se exceptuarmos a casa caiada, os coentros e os medicamentos (nos últimos anos da sua vida); todos juntos não servem para construir uma tábua que se veja – uma de acontecimentos irregulares e notáveis.



publicado por Clara Umbra às 09:30
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Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010
Noms de plume

Morreu o escritor André Bernardes, que também publicou livros – em número consideravelmente menor – como Domingos Rebelo, João da Silveira e Josefa Gresbante. Nos meses que antecederam a sua morte foram concluídas traduções da sua obra em onze línguas diferentes, uma dissertação de mestrado sobre a predilecção do escritor – na criação dos seus pseudónimos – por nomes de pintores portugueses do séc. XVII e duas teses de doutoramento: uma sobre a presença da memória nas primeiras obras e outra sobre a identidade nacional nos últimos romances publicados.

André Bernardes, que na verdade se chamava António Reis, passou os seus últimos meses de vida a caiar uma pequena casa que tinha à beira-mar, a tentar que os coentros que insistia em semear no seu quintal vingassem, a escrever o seu 18.º romance e a iniciar um novo tratamento para artroses, que incluía ibuprofeno, diclofenac, sulfato de glucosamina (na dose diária de 1,5 gramas) e hialuronato de sódio (em pequenas doses difíceis de quantificar).



publicado por Clara Umbra às 16:55
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Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010
Omaggio a Mike Patton





publicado por Clara Umbra às 22:05
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Quinta-feira, 29 de Julho de 2010
Apelo

Desapareceu da minha conta Dropbox um concerto n.º 3. Na última vez em que foi visto vestia um fato azul com finas riscas brancas, circulava a grande velocidade e era conduzido por Sequeira Costa. A quem o encontrar pede-se o favor de mo devolver. Sofre de perturbações musicais.



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Quinta-feira, 8 de Julho de 2010
Licença de uso e porte de aquário

Está uma tarde muito quente. Talvez fechem as casas, as encham de água e as transformem em aquários gigantes que se vejam do céu. Era bonito! Sentava-me, com gosto, no telhado da minha, e passava os dias a dar de comer aos peixinhos. Também podia oxigenar-lhes a água, agitando-a com os pés.



publicado por Clara Umbra às 17:02
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Quarta-feira, 7 de Julho de 2010
Todo o Júpiter tem o seu Caronte

Quanto a dias, estamos assim: a passá-los. E passamo-los, e passamo-los e passamo-los.



publicado por Clara Umbra às 01:41
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Terça-feira, 6 de Julho de 2010
Uma vez que já tudo se perdeu

 

Um dizia que era bom se não tivéssemos memória e perguntava Para que serve a memória, agora que temos telemóvel? Já não é preciso decorar números!
O outro lembrava que a memória serve para decorar músicas. O primeiro, porém, dizia Isso também é pena, assim as boas músicas seriam sempre uma boa surpresa quando as ouvíssemos (pela repetida, irrepetível, primeira vez).

 



publicado por Clara Umbra às 08:45
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Segunda-feira, 5 de Julho de 2010
Margem de certa maneira

O homem vai a todos os espectáculos do teatro da sua cidade e em todos, sem excepção – musicais, teatrais, de dança... –, adormece. Cabeça ligeiramente tombada – com mais frequência para a frente do que para trás – assim permanece grande parte da noite.

Ouvir os outros, mesmo quando se repetem, é uma bênção, sempre é uma variação das nossas repetições.



publicado por Clara Umbra às 09:38
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Sexta-feira, 18 de Junho de 2010
Saramago morreu

e o meu amigo sangue azul disse: agora é que deus se vai vingar...



publicado por Clara Umbra às 23:55
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Sexta-feira, 11 de Junho de 2010
As leis da natureza são as mesmas em todo o cosmos

O homem passara anos a coleccionar chaves num quarto onde ninguém podia entrar. Quando morreu e a sua viúva, por fim, entrou no aposento, encontrou, surpresa, uma chave apenas. O espírito deste coleccionador não era o de juntar mas o de se autocorrigir. Uma nova chave era adquirida graças às propriedades a, b e c e, assim, substituía a anterior que só tinha as propriedades a e b e que, por sua vez, já substituíra a chave com a única propriedade a (isto para reconstituir o início da colecção).

Querer compreender a natureza humana é como querer medir o cosmos com um sistema de medida como os metros ou as milhas.



publicado por Clara Umbra às 07:35
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Quarta-feira, 9 de Junho de 2010
Donnez les esprits

A surpresa precisa de espaço, se não houver espaço, ela não entra. É volumosa, sonora e gosta de protagonismo. Correcto: é de uma família oposta à da memória. Quando uma memória vem na sua direcção, a surpresa muda de passeio. Como é mais rápida, fá-lo antes que a memória levante a cabeça e a veja.



publicado por Clara Umbra às 07:30
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Terça-feira, 8 de Junho de 2010
Kargashai (Mamer)

O peregrino – ou outro homem que viaje – vai à procura da surpresa, mas só a encontra se disser não era nada disto que eu esperava encontrar.

O pensamento que espera é da família (amaldiçoada) das expectativas e o pensamento que encontra pertence à família (feliz) dos reconhecimentos. Um sinónimo de expectar é distrair-se e um de reconhecer é encontrar-se.



publicado por Clara Umbra às 08:35
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Segunda-feira, 7 de Junho de 2010
Peregrinação

São muitas as razões que te levam a partir. O teu corpo vai ser uma extensão do teu pensamento e há-de fazer o que pensares, sem querer saber a razão. Se (numa brincadeira de crianças) perguntares quem nasceu primeiro – o corpo ou o pensamento –, a resposta é óbvia porque as ideias têm corpo (um corpo temporal), mas o corpo não tem ideias (nem conteúdo, além da máquina bem oleada).



publicado por Clara Umbra às 09:10
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Sexta-feira, 4 de Junho de 2010
Nostoi

Regressa a casa mas há muito mais razões para voltar a partir do que para ficar. Ficar manifesta-se na mala aberta, no chão, à espera de que as coisas que lá estão desapareçam em gavetas. Pensar isso é já começar a ficar. Só começamos a ficar quando partir era tão fácil.



publicado por Clara Umbra às 22:00
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Quinta-feira, 3 de Junho de 2010
Hemistíquios

Hoje, finalmente, as visitas aos amigos. As visitas sao eus fracos de cada pessoa. Eu forte (também denominado eu concentrado): estar em casa, estar sozinho, estar a pensar. Eu fraco (também denominado eu distendido ou em gravitação): sair, visitar, viajar. Como se vê, fraco não é usado depreciativamente e o ideal atinge-se no equilíbrio entre eus fortes e eus fracos, sendo que se coloca o problema de onde fazer recair a cesura.



publicado por Clara Umbra às 16:35
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Terça-feira, 1 de Junho de 2010
Karma and effect

Hoje andei a apagar os vizinhos extintos e a regar os que me pareceram estar em vias de extinção. A nossa percepção do que já está extinto ou ainda pode vir a florescer é essencialmente ditada pela fé que temos na ciência.



publicado por Clara Umbra às 23:38
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Segunda-feira, 31 de Maio de 2010
OOOM (Out of Our Minds)

Afinal hoje fiquei-me pelas janelas e pelas cartas, sem tempo para mais.

As janelas tinham muitas novidades, em três semanas muita coisa muda de forma profunda. Nem sempre as novidades nos entram em casa pela televisão ou pelos jornais, neste caso entraram por janelas, toda eu olhos e narinas. Não percebi nada do que vi, mas fiquei presa, esquecida dos restantes afazeres. Nem sempre o que não se percebe nos desinteressa, às vezes alivia-nos.

Quanto às cartas, uma desilusão, nem uma ridícula.

Amanhã as plantas ou os vizinhos.



publicado por Clara Umbra às 21:07
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Domingo, 30 de Maio de 2010
Highway Rider

Acabo de regressar de mais uma viagem, foi só mesmo entrar em casa, pousar o correio que se juntou na caixa, ligar a luz no quadro e aqui estou a escrever isto, em pé. Lista de tarefas para amanhã: Abrir janelas e cartas; Regar plantas; Cumprimentar vizinhos; Visitar amigos; Limpar e encher o frigorífico. O meu professor de yoga tem razão: se tirássemos quinze minutos de férias todos os dias, não precisávamos de tirar umas semanas por ano. Vou já tirar os quinze de hoje.



publicado por Clara Umbra às 23:58
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Domingo, 9 de Maio de 2010
Wash Post

Investigação jornalística revela que as agências de rating norte-americanas consideraram que o Benfica não ia conseguir cumprir o seu compromisso de vencer o campeonato e atribuíram-lhe uma nota entre o Insuficiente e o Suficiente menos (durante um jogo de King).



publicado por Clara Umbra às 23:50
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Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
Ideias?

O regime estava muito desvalorizado e ainda por cima não havia rei para regicidar.



publicado por Clara Umbra às 09:09
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Quarta-feira, 5 de Maio de 2010
Arquive-se

Praticamente desconhecida no seu país, Eugénia Freitas foi uma das melhores cantoras do seu tempo. Primeiro, venceu todos os concursos da sua escola, depois, os da sua cidade, em seguida, os do seu país e, finalmente, vencidos os seus semelhantes, aceitou corajosamente participar num desafio que incluía os melhores canários e rouxinóis do mundo. Veio a perder a voz num desafio contra um EWI 4000S.



publicado por Clara Umbra às 16:00
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Segunda-feira, 3 de Maio de 2010
Sempre quis publicar um post em html





publicado por Clara Umbra às 20:49
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Domingo, 2 de Maio de 2010
Efeito borboleta

No café todos falam de rating e de bancarrota; no breve silêncio que se faz ouve-se um homem a errar a pergunta dos 50 euros porque responde que em Portugal os táxis são pretos e brancos; ninguém quer saber das suas razões – riem-se e regressam às preocupações sérias e às discussões que os fazem ver a vida com outras cores por estes dias.



publicado por Clara Umbra às 19:48
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Sábado, 1 de Maio de 2010
A perfeição não está toda no mesmo sítio

Aqui nisto

Ali naquilo

Aqui em mim

Ali em ti

Aqui na carta

Ali no carteiro.

 

A perfeição não se encontra, colecciona-se.



publicado por Clara Umbra às 09:25
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Sexta-feira, 30 de Abril de 2010
4' 33''



publicado por Clara Umbra às 20:32
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Domingo, 25 de Abril de 2010
Liberdade

Ainda não sabe como tudo aquilo aconteceu. Fechou o livro, adormeceu e, no dia seguinte, quando voltou a abrir o livro, as letras não estavam lá. Procurou-as entre os lençóis, debaixo da cama, por todo o lado, nada, as páginas estavam em branco.

Quando saiu de casa, viu-as, finalmente, a escorrer num muro branco e a ser lidas, inpudentemente, por todos os habitantes da cidade.



publicado por Clara Umbra às 10:48
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Sábado, 24 de Abril de 2010
Poesia sonora I

Aviso aos leitores: não leia este post com os olhos, leia-o com a voz de que é capaz.

 

Túnel

Túúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúúú

nel nel neeeeeeeeel neeeeel neeel

Estamos num túnel

Onde estás tú-nel?

Num túnel tudo se amplifica

tudo ganha grandeza

e contornos de eternidaaaaaade

Estamos num túnel enquanto há túnel

para estar

estamos num túnel até ao fim

até à luuuzzzzzzZZ



publicado por Clara Umbra às 21:16
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Quinta-feira, 22 de Abril de 2010
Children's Corner - Golliwogg's Cake-walk

Quando todos os seus amiguinhos iam para a praia, ele, que estava proibido de apanhar sol, passava os dias na rua a atravessar passadeiras. Pôr o pé na passadeira quando o semáforo estava quase a abrir para os peões, retroceder um passo, avançar dois, medir, hesitar, avançar... era o que mais se aproximava dos passos que dava à beira-mar, provando as ondas. No final do dia a mãe dizia-lhe Vamos, já chega de água.



publicado por Clara Umbra às 08:45
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Terça-feira, 20 de Abril de 2010
Fantasias em luz menor

A luz cai, forte e amarela, em cima do palco, à procura de um ponto de apoio. Não o encontra no palco, nem no seu fundo, nem no corpo do pianista, nem no piano, pois todos se acompanham no negro. Escorre então para as mãos do pianista e aí pára, encontra terreno vigoroso onde se espraiar, se exprimir e se multiplicar na imagem que delas o piano reflecte. É feliz durante todo o tempo que dura o concerto até ao momento em que este termina e ela volta a subir para desaparecer na sua toca.



publicado por Clara Umbra às 23:41
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Segunda-feira, 19 de Abril de 2010
Anda o mundo concertado

Era um daqueles dias em que sentia uma sede muito fonte e uma vida muito redondilha maior.



publicado por Clara Umbra às 14:42
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Domingo, 18 de Abril de 2010
Trompe le monde

Cansadas, as nuvens pedem aos vulcões que agora chovam por elas e que espalhem as suas cinzas pelo céu de forma a que os voos dos aviões cessem e elas tenham algum silêncio.



publicado por Clara Umbra às 10:07
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Sábado, 17 de Abril de 2010
Better days ahead



publicado por Clara Umbra às 10:54
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010
Spring ain't here

 



publicado por Clara Umbra às 23:50
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Quarta-feira, 14 de Abril de 2010
Se eu soubesse que voando

Ao homem que, indo já os amigos a alguma distância, continua por inércia a sorrir à porta de casa (favorecendo mesmo assim quem passa) também deves sorrir; não sabes se ele te sorri por necessidade dele ou por necessidade tua.



publicado por Clara Umbra às 08:45
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Terça-feira, 13 de Abril de 2010
Histórias de frigorífico

Com o advento da Primavera, a lagartinha pôs-se ao fresco, vindo a ser a locatária da segunda folha da alface, a contar de fora.



publicado por Clara Umbra às 12:07
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Segunda-feira, 12 de Abril de 2010
Post 2.0

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publicado por Clara Umbra às 00:23
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Domingo, 11 de Abril de 2010
Aduf

Acordou sobressaltado com um ruído que tanto podia ser de dedos a tamborilar numa pele como de uma aranha a correr pelo quarto. Um ruído saltitante e ritmado que crescia, diminuía, voltava a crescer, voltava a diminuir.

Acendeu a luz: o chão do seu quarto estava transformado num mosaico de meia dúzia de adufes gigantes (cada um feito da pele de uma só vaca) e por cima deles dançava o seu coração em perfeito concerto. Sorriu, aliviado. Nada alegra tanto um homem como ver o seu coração em festa.



publicado por Clara Umbra às 10:00
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Sábado, 10 de Abril de 2010
It might as well be spring

A formiguinha chega junto de sua mãe e pressurosa exclama:

– Em tudo o que nos ensinaram sobre a Primavera – calor, flores, lagartas pavorosas – só uma coisa ainda não foi verdade: o amor ainda não chegou.



publicado por Clara Umbra às 11:17
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Sexta-feira, 9 de Abril de 2010
Quanto mais cerras os olhos, mais Antígona se ergue à tua frente

Quando os homens não suportam a luz, enterram-na. Soterrada, porém, a luz incendeia-se e atinge, incandescente, os corações dos que a enterraram. Qualquer homem sensato sabe que se quer matar um animal deve destruí-lo; emparedá-lo apenas serve para o fortalecer e o fortalecimento da presa há-de ser a fraqueza do predador.



publicado por Clara Umbra às 15:52
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Quinta-feira, 8 de Abril de 2010
What game shall we play today?

Quando dois homens lutam, é difícil dizer se o que ganha o faz porque ganha ou o faz porque o adversário perde. Não, não são duas faces da mesma moeda, são dois mundos distintos. Perguntem a um e a outro, no final do combate, como se sentem; verão que nenhum deles menciona o outro ou sequer pensa nele, as lutas travam-se no interior de cada um, estando eles alheados de tudo o que é externo – o adversário está fora, ainda que mesmo em frente.

O mesmo se pode dizer do amor. Quando um homem se levanta da mesa do café, cansado de esperar, terá sido ele que desistiu de esperar ou terá sido a mulher que desistiu de vir?

Num caso e noutro era útil que existisse um relógio, mundial, para registar com precisão o momento em que o homem deixa de lutar e passa a perder, o momento em que o homem continua a lutar e passa a ganhar e o momento em que o homem e a mulher desistem de acreditar; um juiz verificaria qual o segundo primordial e quem ditou a sorte das coisas.



publicado por Clara Umbra às 00:02
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Quarta-feira, 7 de Abril de 2010
Entry point

Tinha um desejo: que a vida parasse por umas horas (coisa pouca, coisa para ir tomar um café e voltar, descansar um pouco, ler um jornal, falar com um outro conhecido que encontrasse no caminho para a padaria, logo de manhã (mudariam de passeio à procura de sombra (estaria muito sol), aconselhar-se-iam tipos de pão, perguntariam como estavam (estariam bem) e só quando, na despedida, dissesse um provérbio (isso, um provérbio, assim, atirado, um belo e redondo provérbio), iria perceber que aquilo não estava a acontecer de facto (nunca dizia provérbios), mas aí já seria tarde demais, o bem já estaria feito).



publicado por Clara Umbra às 00:19
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Segunda-feira, 5 de Abril de 2010
De um absurdo pessoal

Se comprar uma casa fosse apenas comprar um sítio para viver, já teria tomado uma decisão.

Ao longo da sua vida viu milhares de casas, tomando como base de cálculo a média de uma, duas por semana. Quando alguma lhe agradava, voltava lá e tirava medidas. Quando alguma lhe agradava num nível de agrado superior, pedia à agência imobiliária para passar lá a noite – não que acreditasse em energias ou vibrações, mas era muito importante conhecer os ruídos e os ritmos do prédio. Uma vez chegou a alterar a morada em todos os seus documentos pessoais e junto de todas as instituições que lhe escreviam (desistiu do negócio em semanas).

Nunca chegou a comprar casa nenhuma e durante a sua longa existência viveu apenas em duas: na dos pais e na que os pais lhe compraram.

Se comprar uma casa não fosse comprar a própria pele e músculo de que somos feitos, a carne, o osso, o espelho, já teria tomado uma decisão. Assim era difícil. Não há de nós à venda em quantidade suficiente e a preço acessível. Restava-lhe passar, com o entusiasmo e a esperança de sempre, para a casa seguinte.



publicado por Clara Umbra às 21:42
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Quarta-feira, 31 de Março de 2010
Resiliência

Já foi  .recomeço   pó   fim   começo    engano
céu                                                    terra

estrela                                    encantamento

pele                                                 inferno

degrau                                           perdição

janela                                                prisão

telha                                                     luz

manhã    rio    canção    caminho    túnel  noite



publicado por Clara Umbra às 08:56
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Domingo, 28 de Março de 2010
Sinner man

O homem pecador sai de casa a correr, atravessa a rua a correr, protege-se com o jornal mas este logo se rasga, protege-se com as mãos mas em breve fica com elas em ferida, abriga-se nas portadas dos prédios mas os habitantes das casas e os donos das lojas enxotam-no, não querem o chão sujo de sangue, as pedras caem-lhe em cima violentamente e vão-lhe ferindo o corpo e a cara, ele entra num carro mas uma pedra enorme destrói-o, entra num rio mas as pedras atravessam a água com facilidade, entra no mar mas este abre-se em dois, vê Deus, suspira de alívio, bate palmas desenfreadamente e sorri com a parte do rosto que ainda movimenta – qualquer homem desesperado a pedir ajuda é patético – mas Deus desaparece-lhe tão subitamente quanto apareceu, o mar fecha-se, a seguir evapora-se, no areal agora deserto apenas as pedras continuam a cair e ele duvida que Deus lhe tenha aparecido, cada um tem a verdade que merece.



publicado por Clara Umbra às 20:14
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Sábado, 27 de Março de 2010
Mr. Twilight Zone

Tinha uma imaginação tão prodigiosa, tão prodigiosa, que quando ouvia uma boa ideia achava que era sua.



publicado por Clara Umbra às 01:29
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Quinta-feira, 25 de Março de 2010
Encontro maior

Todas as coisas, uma a uma, o abandonaram, até já só restar o fóssil.

50 mil anos depois, percebeu, finalmente, a razão de ser de tanta solidão e de como lhe estava, afinal, guardado um destino maior.

*



publicado por Clara Umbra às 13:51
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Domingo, 21 de Março de 2010
DIA MUNDIAL DA POESIA

Esse rio que vai lento

espreguiçando-se a teus pés
não traz nunca a mesma água
não volta nunca para trás
Já não é o mesmo rio
e nem uma das suas ondas
voltará para a nascente

Não te prendas a uma onda qualquer
que a teus pés venha morrer
Enquanto o teu pé estiver
dentro dessa mesma água
Muitas outras novas ondas
junto dele irão morrer

Na cidade onde eu vivia
sempre tão cheia de gente
se bem que ninguém lá fique
é costume ouvir cantar
Uma cantiga que fala
do fluir das coisas que há
neste mundo, e assim começa

Não te prendas a uma onda qualquer
que a teus pés venha morrer
Enquanto o teu pé estiver
dentro dessa mesma água
Muitas outras novas ondas
junto dele irão morrer


Fiama Hasse Pais Brandão (15-08-1938 / 19-01-2007)
 


publicado por Clara Umbra às 12:02
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Quarta-feira, 17 de Março de 2010
Testemunho excepcional

 



publicado por Clara Umbra às 00:43
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Segunda-feira, 15 de Março de 2010
"A Verdade encontra-se nas coisas, não nas palavras."

Eu não digo que não quisesse correr se ao menos tivesse pernas

mas sabem que não tenho e, parecendo que não, isso muda tudo.

Dizendo isto eu não digo que não tenha pernas de todo,

o que eu não tenho é das boas, das que correm a bom correr, como se diz.

Diz-se isso e até se diz mais, diz-se que quem corre por gosto não cansa

e outras verdades igualmente belas e certamente ditas

por quem tem duas boas pernas.

 

 

Sempre corri violentamente mas elas sempre me ficaram para trás

atulhadas de lixo ou naufragadas nalguma poça.

 

 

Mas é cedo, ainda. É sempre cedo para se ter o corpo certo,

aquele que faça aquilo que nós queremos que faça.

Vamos ver se me crescem outras, melhores, ou se se

fortalecem estas, enquanto ainda me pertencem.

 

 



publicado por Clara Umbra às 19:09
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Domingo, 14 de Março de 2010
O meu infinito abissínio

No deserto o tempo esteve quase sempre escaldante.

Os sons chegavam-nos  abafados, soprados

como se proviessem de muito longe

(de corpos inclinados para a frente, a flutuar)

e batiam-nos na cara em baforadas leves e encorpadas. 

Comemos raízes e bebemos uma água barrenta durante dias.

Dormimos, enrolados em lençóis, em cima da terra

à procura da humidade, escondida, do mundo. 

É provável que numa noite os astros nos espreitassem

conjurando sobre o nosso destino

porque o que é certo é que acordámos

e estávamos tão mortos quanto se pode estar

pelo que nos é dado conhecer, que não é muito.



publicado por Clara Umbra às 17:44
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Sexta-feira, 12 de Março de 2010
As coisas de que poderíamos falar e, no entanto, mais vale nada dizer

Poderíamos falar de escutas, assunto na ordem do dia.

Poderíamos falar de escotilhas, assunto na ordem do mar.

Poderíamos falar de partilhas, pastilhas, sintonias, equívocos e até de cabos eléctricos, como os de Ávila.

Poderíamos dizer tanta, tanta coisa.

Trouxe-vos fotografias da viagem. 

 

 

 



publicado por Clara Umbra às 22:27
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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
Classificação Decimal Universal

Depois da experiência positiva de duas caixas com brinquedos de ovos kinder que não ficaram mais de duas horas à porta de casa, decidiu que passaria a deixar no hall do prédio, em vez de as levar para o lixo, coisas que ainda estavam em bom estado de conservação e aparentavam boa forma. A experiência foi de tal modo gratificante que rapidamente passou a ter uma grelha onde registava o tempo médio que as coisas demoravam a ser retiradas e onde as rotulava  – bem de primeira necessidade, utilidade doméstica, roupa... – para poder chegar, um dia, a conclusões que não fossem precipitadas. Em breve conseguiu estabelecer teorias kuhnianas de alto coturno... apenas precisava de que algo de verdadeiramente grande pudesse confirmar ou infirmar as suas proposições. Então resolveu deixar lá o marido; como esperava, ele não ficou mais de cinco minutos sem ser levado  – era um excelente partido!  – , o obstáculo foi encaixá-lo numa das classes disponíveis: bem de primeira necessidade, utilidade doméstica, roupa... Morreu louca, rodeada de papéis, cálculos e chávenas de chá verde sem encontrar a solução. Quem pratica a caridade com coração impuro não merece outro destino.



publicado por Clara Umbra às 11:41
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010
Sístole e diástole

O cansaço dos dias presentes esgota as horas mas não o nosso tempo. As coisas tangíveis e tensas vizinham com o teu sorriso, que as dissolve num abrir e fechar de compassos e rege os calendários. Quando pudermos descansar havemos de não parar para continuar a correr – digo-te. Correr é um verbo bom, exprime uma acção que leva tempo, que demora, e que pode ser feita a dois. Já morrer, por exemplo, demora um segundo e morre-se a sós – e só por isso já não me interessa. 



publicado por Clara Umbra às 20:57
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Terça-feira, 19 de Janeiro de 2010
As explosões térmicas são mais belas que os universos estacionários, têm olhos mais brilhantes

– Vê como tudo começa devagar.

– O quê?

– O mundo. O mundo inteiro. Aqui. O mundo inteiro a começar, devagar, vem ver!

– Oh! É assim que os mundos começam?

– Os maiores começam assim, os da viragem. Vê: inteiramente azul, sólido, imenso, a girar suavemente sobre si próprio, não obstante a velocidade estonteante. Dir-se-ia que está desprendido de todo o universo e no entanto tem o universo preso a ele.

 

 



publicado por Clara Umbra às 19:01
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Sábado, 9 de Janeiro de 2010
Mas e que olhos são esses olhos em que ficamos?

São olhos que não querem ser lagos, como na poesia, não querem assistir a naufrágios, nem espelhar o céu. São olhos que querem, antes, ser terra castanha, onde te deites e descanses à sombra das pestanas. Sabes que elas se abrem e fecham para te refrescar e, como ponteiros, marcam os segundos da tua vida que passa.

São olhos que não querem ser lagos, como na poesia, porque não te querem perder neles, querem encontrar-te – não querem ser álcool, querem ser musa.

 

São olhos que querem ser o que já são.



publicado por Clara Umbra às 00:40
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Terça-feira, 29 de Dezembro de 2009
Da beleza dos dias de invasão

Pós-invasão: s. f.  Descansar depois, vencida a batalha e tomado o espólio. Deixar o corpo adormecer dentro da armadura para não esquecer a beleza do confronto e encostar a cabeça nas ervas finas para adivinhar a maciez do tempo de paz. Sonhar que as estrelas têm contendas em que disputam o melhor espaço no céu, o maior brilho, a maior proximidade da Terra. Acordar e estar entre elas – a cabeça no colo da mais brilhante. (in: Dicionário dos Dias)



publicado por Clara Umbra às 13:30
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Sábado, 26 de Dezembro de 2009
Da insuportabilidade dos dias de espera

Insuportabilidade: s. f. Solo instável, tempo sem densidade, conflito maneirista, dissociação da sensibilidade, premonição de queda, absurdo radical. (in: Dicionário dos Dias)



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Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
Um enigma é um enigma é um enigma é um enigma

Estão Deus, S. Francisco de Assis* e um cão presos num labirinto. Deus condenado à sua infinita sabedoria, S. Francisco de Assis ao seu Deus e o cão à sua natureza.

Fora do labirinto, um sino dá o alarme, um berimbau o descontentamento e uma gaita de foles o absurdo e o desconcerto do mundo.

Todos – sejam divinos, humanos, animais ou musicais – estão presos. O que os poderá libertar?



publicado por Clara Umbra às 16:29
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O tempo nos revelará

Cicatrizemos juntos, então.

Mas sangremos – antes.

 

Clara Umbra e Blue E-Bow



publicado por Clara Umbra às 00:00
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Sábado, 5 de Dezembro de 2009
Alguém olhará por ti

E os dois, como velhos continentes, voltaram a juntar-se, misturando montes, vales e rios sob um mesmo céu. Um mar acordou, então, despertado pela convulsão, e só voltou a adormecer quando a lua lhe verteu a sua luz branca e dolente.



publicado por Clara Umbra às 00:44
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Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009
autumn leaves [ii]



publicado por Clara Umbra às 00:55
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Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009
E a água? Transformou-se em fogo.

O rolo de músicas caiu devagar na água do lago parada há muito tempo. Primeiro, enquanto se aproximava, encantou-a com as sua melodias e fê-la rir com as insuspeitas combinações que as palavras, retiradas das músicas a que pertenciam, construíam. Quando, por fim, tocou a sua superfície, transformou-a em fogo. A água já conhecera muitas coisas belas: as cores dos pássaros, a sombra dos arvoredos, a calma adormecida do estio, o eco das montanhas... mas nada se comparava ao que conhecia agora, que lhe retirava o oxigénio,  incendiava o hidrogénio e a revolvia por dentro. A música beijou a água e a água ficou mais doce, mais densa, mais água.

E as músicas? Viram-se espelhadas na água e finalmente reconheceram a sua beleza.



publicado por Clara Umbra às 01:17
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Domingo, 29 de Novembro de 2009
E aqui nasceu o silêncio

No dia seguinte não conseguia ouvir nada. Estava enjoado de sons, entupido de ruídos. Sentia um eco contínuo a atordoá-lo. Aproximou-se de um lago e puxou de cada ouvido um rolo de músicas: wish you were over the rainbow don't you forget I dye a little... Quando terminou foi como se lhe tivessem nascido orelhas novas.



publicado por Clara Umbra às 23:16
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Sexta-feira, 27 de Novembro de 2009
You make me smile with my heart

Porque o amor é isto: um céu de ininterrupto azul e um sol de contínuo calor. Tudo o resto será teoria ou poesia... não é a vida.



publicado por Clara Umbra às 23:53
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Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009
Migration of Spirit

Na penúltima carruagem do comboio viajavam os que usavam obsessivamente telemóveis, leitores de música e outros aparelhos electrónicos. Há muito que ficara provado que eram nocivos para a saúde e a Ordem Médica Mundial emitira um conjunto de recomendações que incluía a disposição de todas as pessoas que sofriam de algum tipo de patologia nos meios de transporte públicos.

A antepenúltima carruagem, onde este homem acabou por se sentar, entalado entre uma Alhambra e um Steinway vertical, era reservada a todos os que tinham contraído a mais recente epidemia que assolava a sociedade, uma espécie de demência que os fazia acreditar que eram instrumentos musicais ou dispositivos electrónicos utilizados na música.

Quando o comboio parou na estação e o homem, acompanhando o solavanco da travagem por inércia, se inclinou levemente para a direita, todas as cordas de nylon da vizinha do lado se arrepiaram de prazer.



publicado por Clara Umbra às 17:13
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Sábado, 21 de Novembro de 2009
Diz

Ultimamente acontecia-lhe com frequência.

Acordava a meio da noite com a cabeça cheia de palavras, de versos inteiros, de versos partidos, dodecassílabos, se era mais próximo da manhã, apenas um hemistíquio, se ainda era noite.

Levantava-se e andava pela casa, atordoada de sílabas, à procura da palavra certa – se a não encontrava dentro de si nas lombadas dos livros, nos nomes dos objectos, nos títulos de álbuns, nas imagens da televisão sem som.

Quando amanhecia e saía de casa, ouvia as pessoas falar e não prestava atenção ao que diziam, contava-lhes as sílabas métricas. Todos os sons da rua correspondiam a troqueus, iambos, dátilos e anapestos.

Cada hora passou a ser uma página de um imenso livro onde era urgente escrever mais uma palavra. Cada vez que olhava para fora de si via linhas por encher e cada vez que olhava para dentro de si via palavras por alinhar.



publicado por Clara Umbra às 17:15
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Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
Irás ao paço, irás pedir a tença

- Dizei, o que quereis?

Diante do rei, a jovem explicou:

- Construir uma máquina que nos permita viver em diversas pistas temporais: o meu tempo será o tempo da minha mãe, e o da minha avó, e o da minha bisavó... e eu continuarei a ser eu, e a filha dela, e a neta dela, e a bisneta dela... Entraremos e sairemos de cada painel  do tempo quando quisermos, sem poder alterar, nunca, a história. Olharei para todas elas como agora olho as estrelas e no entanto elas já desapareceram há milhares de anos.



publicado por Clara Umbra às 15:01
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Pergunta tu ao tempo quanto tempo o tempo tem

Um dia deixou cair alguns anos na alameda que conduzia a sua casa e os liquidâmbares que no outono passado não tinham mais do que uns palmos douraram a tarde. Falou-se muito de alterações climáticas por essa altura. Procuram-se sempre explicações bizarras para as coisas simples.



publicado por Clara Umbra às 09:44
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Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
Solo de tablas em Picadilly

 

O homem subiu à acrópole.

 

De lá, ouvia todas as tablas do mundo ribombar ao compasso do seu coração.

Via luzes fluorescentes, que tentava seguir com o olhar, mas que se perdiam no meio de datas e de rostos cruzados na memória (ao ritmo das tablas que ribombavam ao compasso do seu coração).

 

Ouvia também a respiração das frases que tencionava dizer, mas que não chegava a pronunciar, porque se perdiam por entre ecos, reverberações e tablas da memória.

 

Quando se atirou, deixou de ouvir as tablas para só ouvir a respiração do coração.

 

Quando o corpo caiu no chão, foi o eco da memória que se ouviu.



publicado por Clara Umbra às 17:28
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
Ignoto deo

Era um homem muito religioso. Oferecia presentes e sacrifícios pessoais a diversos deuses, em troca de respostas, numa estranha hierarquia: pedia a um segundo para a eventualidade de o primeiro não o atender, a um terceiro, para suprir alguma falha do segundo, e por aí em diante. Quando esgotava todos os que conhecia e as suas preces não eram ouvidas, subia ao monte e pedia a um deus desconhecido, receando que houvesse deuses em falta. Ele procurava razões e sentidos e explicações para as coisas. Ora não se pode procurar razões e sentidos e explicações para as coisas. Se se encontra, excelente, procurar não vale. É como procurar uma moeda no chão. Conheço pelo menos cinco pessoas que encontraram dinheiro no chão e nenhuma delas estava à procura, mas todas deram conta de que o tinham encontrado.



publicado por Clara Umbra às 00:47
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
Cantiga da ceifa

Bateram à porta. Há três anos que ninguém o visitava, ninguém o procurava, ninguém lhe telefonava. Abriu. As leis eram claras: pessoa que fique três anos sem que ninguém a reclame é desmontada para peças. Quando as leis são claras e justas não se questionam e ele não era um arruaceiro.



publicado por Clara Umbra às 17:21
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Sábado, 31 de Outubro de 2009
30 anos é muito tempo

 

Daqui a 30 anos reformo-me e abro uma livraria chamada Livros Babel.

Adenda ao post: Vá! Sejam simpáticos. Em "libros", troquem o "b" por um "v", mesmo que nos vossos genes esteja inscrita a prática contrária.



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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009
Bom dia



publicado por Clara Umbra às 10:52
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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009
As metáforas ardem mal e as não metáforas ardem pior

Por mais que explicasse que não era uma metáfora, o jovem publicitário foi despedido quando utilizou numa campanha para uma companhia aérea o diletante slogan "Faça a sua família ir pelos ares".



publicado por Clara Umbra às 17:22
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Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009
Autorfagia

O autor

dá-se

a comer

linha

a

linha.



publicado por Clara Umbra às 10:01
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Domingo, 25 de Outubro de 2009
O homem que não fala é um homem que conta a história

Frida Kahlo

"Sinto o seu calor e isso chega-me." "Um, dois, três pássaros no céu, tão longe, formigas azuis." "Era bom que o autocarro não viesse, daqui vejo o mundo a passar." "Tudo o que me escapa não me faz falta." "Para quando o amor? Para quando o amor?"



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Sábado, 24 de Outubro de 2009
O tempo que faz não é o tempo que fez

 

Passara a vida a medir, a talhar, a cortar, a coser. Os fatos de três peças eram os seus preferidos, homem nenhum deveria andar sem eles, dizia, é tão natural como termos cabeça, tronco e membros. E quando dizia cabeça, meneava ligeiramente a cabeça, dizendo tronco, punha-se direito, e, ao pronunciar membros, acenava com as mãos. Achou, pois, natural que a última coisa a que tenha assistido tenha sido, na morgue, aos seus próprios talho, corte e cosedura. O fato que lhe vestiram fora feito por ele, num tecido leve, mas quente, e óptimo para a chuva. Nunca se sabe que partidas nos prega o tempo, às vezes até se acaba sem estarmos à espera, pensou mesmo antes de ouvir a tampa do caixão fechar-se sobre o seu perfeito risca de giz.



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Terça-feira, 13 de Outubro de 2009
All together now!

Os caprichos editoriais acordaram num mau dia de cabelo. Passam pela circulação alternativa, cumprimentam um post (o mais exótico) e rumam a uma estrada deserta. Só param quando encontram rum e gajos nus.



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Sábado, 10 de Outubro de 2009
Trânsito condicionado

Este blogue está em circulação alternada: ora passa um post, ora não passa nada.



publicado por Clara Umbra às 01:29
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Domingo, 4 de Outubro de 2009
Love is a many-splendored thing

Beatriz nasceu com quatro dedos numa mão e isso manchou toda a sua vida. Já adulta, quando espetava uma bofetada violenta num aluno, as quatro marcas vermelhas da sua deficiência apareciam em todo o seu esplendor, na face da criança, apenas para a humilhar. Só quando começou a namorar encontrou paz para a sua mácula: quando os seus dois pares de dedos são entrelaçados pelos cinco dedos do namorado, sem dedo que sobeje ou espaço que falte, tudo faz sentido.



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Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
Presentes que me marcaram

– Durante um abalo sísmico, e perante as enormes fendas que se abrem, todas as pernas são curtas e qualquer par de asas é bem-vindo, minha filha. Se tiveres o teu próprio par, não dependerás da bondade de estranhos.



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Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009
Love sublime

 

Numa altura em que ora me sinto em baixo de forma, ora em baixo de conteúdo, e em que só me apetece tomar um semicúpio em posição de meia lótus, eis que tenho um bilhete  para ver o Brad Mehldau. Deus existe de vez em quando.



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Domingo, 27 de Setembro de 2009
Indignação

Onde estão os anjos?

«Estamos do outro lado do espelho, que é também um espelho» e a verdade esmaga-nos.



publicado por Clara Umbra às 20:02
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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009
Sopra-me

Adoro quando me sopram, devagar.

 



publicado por Clara Umbra às 23:02
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Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009
Sempre gostei de uma boa personificação

A bola traiu o jogador. E não foi a primeira.



publicado por Clara Umbra às 20:31
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Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009
Asfixia democrática

Cinco pessoas morreram asfixiadas, ontem, no meu prédio: o sr. António, que é funcionário de uma conhecida empresa de telecomunicações, o sr. Abílio, que não sei o que faz, mas conduz um carro de gama superior, embora importado da Alemanha, o senhor do 5ºD, que não sei como se chama, mas é médico (segundo indicação preciosa dum autocolante colado no para-brisas da sua viatura de gama superior+ adquirida no concessionário local), e a sra. Dolores, que efectua limpezas nas denominadas zonas comuns.



publicado por Clara Umbra às 22:14
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Terça-feira, 8 de Setembro de 2009
I see dead people



publicado por Clara Umbra às 18:16
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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
Men's singles - round zero

Com Federer X Robredo no Eurosport, como ver Paulo Portas X Jerónimo de Sousa na SIC?



publicado por Clara Umbra às 21:30
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Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
Braço-de-ferro

 

Aparentemente o galo está a ganhar.



publicado por Clara Umbra às 11:40
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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009
Estado gasoso a caminho do estado plasma

O meu local de trabalho, hoje.

 

 

Eu sou a terceira bolhinha a contar da esquerda, na segunda fila.



publicado por Clara Umbra às 20:48
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INTRO
DOWNBEAT
SEHNSUCHT
 
BACKYARD

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