Terça-feira, 25 de Março de 2008

Iniciados

Admiro supinamente as pessoas que se referem ao Super Bock Super Rock dizendo apenas SBSR.
publicado por Clara Umbra às 10:35
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Segunda-feira, 24 de Março de 2008

Casos de polícia

Quando se encontraram, ela perdeu os sentidos: ficou sem ver, sem ouvir, sem sensação de tacto, olfacto ou paladar.

Na secção de perdidos e achados da Polícia apareceram cinco sentidos, encontrados casualmente numa rua, mas como é que ela provava que lhe pertenciam?

Foi ele fazer o reconhecimento: mal se aproximou da caixa onde estavam guardados, a visão viu, a audição ouviu, o tacto sentiu, o olfacto cheirou e o paladar gostou.

O amor tem destas coisas.

publicado por Clara Umbra às 15:54
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Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Current Events

Se exceptuarmos uma meia dúzia de clássicos, poucas coisas me trazem a felicidade que me traz reencontrar um anel que julgava perdido.

Para se perceber bem a ideia, convém assinalar que um anel, para uma mulher, talvez assim suceda igualmente com os homens que apreciam e usam anéis, nunca é apenas um anel: carrega conotações variadas, profundas e vedadas à compreeensão de quem não é o proprietário estimativo do anel – foi oferecido pela pessoa x, foi comprado na companhia da pessoa y, foi usado no dia em que nos aconteceu qualquer coisa...

Por alguma razão insondável mas profundamente exasperante, é sempre esse anel especial que me costuma desaparecer. Normalmente, aloja-se no forro dos casacos, via bolso furado (que ninguém me ganha a furar bolsos de casacos), mas, até o descobrir, há um circuito de caixas, gavetas, carteiras, bolsos... que é preciso percorrer e cuja ronda me pode chegar a demorar semanas ou, em casos mais drásticos, meses, porque, em vez de ser feita com a ordem e a sistematicidade devidas às investigações, é orientada pela minha (pura e, nestas situações, ineficaz) intuição. O momento em que se dá o encontro, porém, é de uma felicidade inigualável, e foi o que me sucedeu hoje!

Já reparei, contudo, que, num mesmo dia, dois casos irmanados entre si pelo traço semântico descoberta, podem ser desirmanados quanto ao traço felicidade, e hoje, que encontrei o meu adorado anel, encontrei também um buraco numa meia – isto estando eu fora (e longe) de casa.

Não obstante os casos dos anéis e dos buracos, e já que falei em símbolo, o símbolo máximo da arte de aparecer ou reaparecer do nada, para mim – e para a minha irmã! –, há-de ser, sempre, a Gloria Estefan.

Há muitos anos atrás, em 89, 90 – por aí, nós as duas ouvimos na rádio que a Gloria Estefan tinha tido um acidente gravíssimo e tinha morrido – e não, não tínhamos fumado coisas esquisitas. Não a adorávamos, propriamente, mas simpatizávamos com ela, quem é que não simpatizava com a Gloria Estefan? Ela era muito simpatizável, muito fresca, muito mexida... de forma que devemos ter tido uma reacção do género booolas-que-cena! Qual não foi o nosso assombro, quando, decorridos um ou dois anos sobre o seu passamento, a vimos na televisão! Foi um choque tremendo, garanto-vos, e nunca, até hoje, acreditámos na história, que eles quiseram vender, de que ela tinha sobrevivido ao acidente e tinha estado internada num hospital durante uma catrefada de meses... Por favor! Se houvesse blogosfera na altura, ela não se tinha safado tão facilmente com uma história tão retorcida! Tanto mais que – prova derradeira para os que estão aí a torcer o nariz – o primeiro álbum dela, lançado anos antes, se chamava Renascer... Não me lixem, nada acontece por acaso! Ela morreu e ressuscitou, não me perguntem como. E nem sequer foi a primeira, como bem sabem.

Em conclusão, foi com esta história da Glória Estefan que aprendi, muito nova, o que hoje comprovo com os anéis e os buracos das meias: há coisas que aparecem na e desaparecem da minha vida segundo mecanismos que escapam à minha compreensão... Suspeito que sejam da parte masculina do universo.

publicado por Clara Umbra às 18:29
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Terça-feira, 18 de Março de 2008

Bebé com cólicas precisa-se

Os meus vizinhos são simpáticos e silenciosos q.b.. Um acordo tácito determina que eles põem as crianças a chorar alto, eu ponho a música, e não tem havido abusos de parte a parte. Hoje, porém, a minha vizinha pôs os êxitos do Iglesias, num volume considerável, quebrando, assim, o acordo.

P.S. Não ouvi nenhuma discussão... mas os casamentos inoperantes reconhecem-se à distância.

publicado por Clara Umbra às 02:23
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Domingo, 16 de Março de 2008

Benedictus dominus deus noster qui dedit nobis signum

Vi, ontem, em "Sócrates como nunca o viu", o Primeiro Ministro a citar «O Sentimento dum Ocidental», do Cesário Verde, a propósito dos dias cinzentos, da nostalgia e do Tejo. Com isto, José Sócrates logrou alcançar dois objectivos que há muito perseguia: subir na consideração dos portugueses e lixar o Luís Filipe Menezes, a quem, hoje, em entrevista do mesmo formato, e, por exemplo, a propósito das querelas internas do seu partido, não restam senão três alternativas convincentes: ou cita Camilo Pessanha («Chorai arcadas / Do violoncelo! / Convulsionadas, / Pontes aladas / De pesadelo...»), ou cita Teixeira de Pascoaes («Sou o homem de si mesmo fugitivo; / Fantasma a delirar, mistério vivo»), ou cita António Nobre («Tísicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina! / (...) / Reumáticos! Anões! Delíriums-trémens! Quistos!»).
Desconfio que vai citar Pessoa («Valeu a pena? Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena) e deitar tudo a perder – alguém que lhe diga que os portugueses estão fartos de clichés (não desfazendo do Pessoa, que é o maior, mas se há alguém a quem se aplica uma construção do estilo há mais Pessoa para além destes versos é ao Pessoa, perdoe-se-me a repetição).
publicado por Clara Umbra às 19:49
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Sábado, 15 de Março de 2008

Violent Pornography

«First I watched them just to kill time, but then I couldn't take my eyes off them, just as you won't be able too.»

Ligo a televisão: jogo de ténis. Como é que sei que está a jogar o Safin ou o Nadal, mesmo que os nomes deles não apareçam no cantinho do ecrã? As cabeças das mulheres que estão a assistir não rodam para acompanhar a bola, estão fixas no lado do corte onde eles estão. Para nós, eles têm sempre vantagem.

Adenda: Este post é dedicado à Ayla – agradeço a citação e a tradução, fico muito melhor em inglês!

Adenda à adenda: Embora a língua que capte mais cabalmente a complexidade do que escrevo seja, sem dúvida nenhuma, a dos hotentotes. Também para eles envio um beijo úmbrico.

 

publicado por Clara Umbra às 14:37
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Sexta-feira, 14 de Março de 2008

Lições de vida

Há uma coisa de que há muito eu suspeitava e de que agora tenho a certeza: com o sorriso certo, nenhuma mulher precisa de esperar muito tempo para que lhe cedam a passagem num cruzamento ou em qualquer situação em que pareça não ter prioridade, o que, julgo, permite concluir que o código biológico é muito mais humano que o da estrada, ao contrário do que se possa pensar.

P.S. desnecessário: O truque do sorriso funciona essencialmente quando os outros condutores são homens, vá-se lá saber porquê (para mais esclarecimentos ler Edward Osborne Wilson, seguido de O Código da Estrada).

publicado por Clara Umbra às 18:48
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Quarta-feira, 12 de Março de 2008

O inferno é aqui

Há novos pecados disponíveis para download.

Faça o login digitando nome de usuário e santo-e-senha.

publicado por Clara Umbra às 10:05
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Segunda-feira, 10 de Março de 2008

Blogosfera elle-même

Nota 1: A propósito de um post em desconstrução, googlei, por curiosidade, "Ainda o apanhamos!" e "falhámos a vida, menino!" e foram muitos os blogues, de origem e natureza diversa, que acusaram conter essas citações.

Nota 2: Nesta última semana (para não ir mais longe) foram vários os blogues que reflectiram, partindo de diferentes perspectivas e com enfoques variados, sobre o fenómeno da blogosfera.

Nota 3: Andamos todos a falar do mesmo e com as mesmas palavras e é por isso que a memética me tem vindo a fascinar quase tanto como a arte de bem depilar.

publicado por Clara Umbra às 10:31
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Domingo, 9 de Março de 2008

D. José I bate Mickael Carreira

No Público de hoje podia ler-se que «Dezenas de fãs acamparam desde quinta-feira às portas do Coliseu [do Porto] para assistir ao concerto de Mickael Carreira».

Mickael, Mickael, isso não é nada, cresce e aparece! Ontem o D. José I juntou mais de cem mil no Terreiro do Paço, isto, sim, é popularidade!

P.S. E olha que não precisou de abrir a camisa no peito...

publicado por Clara Umbra às 21:39
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Sexta-feira, 7 de Março de 2008

Haja alguém que enrole um dicionário e o ponha na ponta duma espingarda

O acordo ortográfico foi finalmente assinado, mas, se continuar a gerar tanta polémica, qualquer dia torna-se necessário um armistício ortográfico.
publicado por Clara Umbra às 12:26
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Quinta-feira, 6 de Março de 2008

Estes romanos são loucos!

Se, porém [o "porém" deve-se ao subtil mas belo encadeamento temático que se faz entre este post e o anterior], Júlio César não tivesse roubado um dia a Fevereiro, para o acrescentar ao mês que lhe era dedicado (Julho) e, assim, ficar com o mesmo número de dias do mês de César Augusto (Agosto), hoje ainda era só dia 5 de Março e isso, sim, é que seria bom (não me perguntem porquê).

Donde se prova que há pessoas muito mais invejosas do que as minhas amigas de infância, que queriam trocar tudo e mais alguma coisa pela minha colecção de Mônicas.

publicado por Clara Umbra às 14:25
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Em Março os dias já são bem maiores!

E a prova é que neste momento são 25 horas e 30 minutos.
publicado por Clara Umbra às 01:30
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Quarta-feira, 5 de Março de 2008

Eu não nego à partida uma ciência que desconheço

Todos os dias leio a astrologia no SAPO. Não é tanto para saber o que me vai acontecer, porque por vezes eles também falham, são humanos, é mais para ler que vou ter um dia bom.

Em primeiro lugar, leio a Maya. Quando ela não me prenuncia coisas boas, reconforto-me, pensando que ela se está a referir a outras pessoas do meu signo, e passo ao Paulo Cardoso e, se necessário, aos outros quatro, sucessivamente.

Quando dou conta de que, em determinado dia, todos eles se referem a outras pessoas do meu signo, que não a mim, lá tenho de recorrer a borras de café...

publicado por Clara Umbra às 14:09
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Terça-feira, 4 de Março de 2008

Machine head

Se o carro que tenho agora é mais fácil e agradável de conduzir do que o que tinha há dez anos, se o computador em que escrevo agora é infinitamente mais prático, leve... e fácil, também, de certo modo, do que o que tinha há dez anos, e se isto é igualmente válido para a máquina fotográfica que tenho agora e para muitas outras coisas complexas,  sofisticadas e cheias de botões que andam lá por casa e que se tornaram mais simples e intuitivas, por que é que a minha vida não é também mais fácil de viver?

Será que os senhores da Sony, da HP e isso assim podiam vir cá dar uma mãozinha, numa de altruísmo recíproco? Ou será que eu podia ir durante uns tempos para as fábricas deles fazer uns upgrades?

São questões que deixo para a eventualidade de eles lerem este post.

publicado por Clara Umbra às 13:55
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Também é uma forma de afonia

Hoje ando à procura da minha voz interior.
publicado por Clara Umbra às 11:37
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Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Zero tolerance for silence

Para cima de dez vezes me aconselharam, nestes últimos dias, a tomar chá de casca de cebola para a rouquidão. A mim, tanto se me dá como se me deu estar afónica, até chega a ser uma bênção porque não tenho de falar com ninguém, nem de fazer conversa. Cumprimento com um gesto e pronto − e eu cumprimento com gestos como ninguém, esse crédito me seja concedido, não sou muita alta e os gestos saem-me, por consequência anatómica, com um grau de perfeição acrobático-estética verdadeiramente digno daquele passe final das ginastas, quando, depois de dez mortais empranchados à retaguarda, chegam ao solo e se esticam com os braços no ar diante do júri. Ciente de que o meu aceno não se quer tão largo, porque raramente cumprimento júris em estádios olímpicos, sai assim com aquele charme do aceno imortal do Kundera e é bem capaz de também ficar aí a trabalhar na cabeça de muito gajo que se pretenda escritor. Regressando, porém, ao chá de casca de cebola, a simples alusão a semelhante bebida, que deve resultar pardacenta e com coisinhas a boiar no cimo da chávena, a não ser que se lavem as cascas e lá se vai o efeito terapêutico da cebola, irrita-me profundamente e traz ao de cima, também em mim, coisas que eu preferia manter caladas nas profundezas do meu ser, ou, pelo menos, afónicas como as cordas vocais, até porque faço gala em que no meu corpo as coisas funcionem em uníssono e, se não há voz para umas partes, não há voz para outras. Isto para dizer às pessoas que não devem massacrar as outras com receitas de chás e, se o querem fazer, então que sugiram aquelas caixinhas da Lipton ou coisa que o valha, em que as folhas bentas se assumem devidamente trituradas e guardadas dentro de saquinhos alvos e assépticos... porque ouvir «devias fazer chá de casca de cebola» chateia a paciência até das pessoas mais pacientes como eu. Irrita, ou melhor, inrita – que nestes casos o n traz sempre muita sonoridade e, consequentemente, plasticidade às palavras; defendo sempre o aparecimento de um n depois do i, como na palavra indentidade, que li há dias e me pareceu muito bem e que o n lhe dava outro sainete.
À guisa de intróito falei do chá de cebola, mas, para ser absolutamente verdadeira, há poucas coisas neste mundo tão irritantes como estar na fila do Multibanco e era quase disto que eu queria falar.
Eu sei que não é o fim do mundo, que não dói, que não é cancro, que não é fome... mas chateia. Sobretudo quando, pela frente, se apanha o género de pessoas que vai levantar dinheiro, pagar a água, a luz, o telemóvel, consultar movimentos, fazer transferências… confirmar, enfim, que existe – através da ida ao Multibanco, inscrevem-se no mundo da forma mais comezinha possível: como pessoas domiciliadas, fiscais, contribuintes, e que fazem tudo isto de modo honesto e a horas.
Ainda quando há um gajo bom na fila, preferencialmente na fila do lado, ou na minha mas à frente, desde que não haja ninguém muito possante a tapar-me as vistas, tudo bem, o tempo resvala veloz e interessante, enquanto lhe aprecio, com o rigor crítico exigido, o corpo, o rosto, a roupa, as mãos, se tem estilo, se não tem, o que fará se usa aqueles sapatos, o que esperará da vida, aquele cabelo já precisava de outro corte, aposto que ouve Il Divo (e isso em mim tem logo um extraordinário efeito anti-afrodisíaco, tipo desumidificador) e todas aquelas coisas que me ocorrem quando um gajo jeitoso está à vista, e que aqui me coíbo de pormenorizar por não serem da vossa conta e, definitivamente, não interessarem ao caso.
De toda a maneira, pior, muito pior, é a coincidência de haver telemóveis com toques parolos ou, pior ainda, os próprios parolos − sem a hipálage −  a falar ao telemóvel. Nunca me inteirei da vida de tanta gente como desde que inventaram as ATM (e notem que eu não escrevo ATM's, porque me causa clamídia): o telemóvel toca e a pessoa que atende olha em redor para ver se pode entabular íntima conversação à vontade ou se tem de se resguardar. Ora, ou sou eu que tenho cara de quem não faz mal a um insecto e nunca, mas nunca, irá divulgar ao mundo o que ouviu, ou nunca apanhei pessoas cujo desejo de ocultar as suas existências deprimentes fosse um imperativo moral, ou, vá lá, estético, de sorte que tenho sido brindada com histórias bestiais… que não posso reproduzir pelos motivos acima indicados, pelo menos não antes de mudar os nomes das pessoas e das localidades.
Dizia eu que há poucas coisas tão irritantes como, mas o que me faltou dizer foi que há as que são ainda mais implicantes, num nível de implicância que roça a vontade de me suicidar ou de, pelo menos, fazer algum mal a mim própria como arrancar uma unha, e é de uma delas que quero falar desde o início deste texto. É difícil dizer se as supracitadas são mais ou menos irritantes do que a tal que não tardo a introduzir. Digamos que são menos, se estabelecermos esta de que vou falar como centro do cânone, assim à maneira do Harold Bloom: se esta estiver no centro, podemos reunir uma série de outras que são parecidas, por entrarem também no espírito ouvir-pessoal-seca-é-uma-seca, mas que ainda assim são satélites que ficam a léguas do núcleo.
Ao núcleo vou eu já direita, porque essa é a forma de lidar com os núcleos, para explicar, então, que verdadeiramente debilitante, para não dizer incapacitante, é estar a tentar trabalhar e ter, ao lado, colegas que pensam alto. Isto sim é o verdadeiro inferno e não o das chamas e isso. Trocava, de bom grado, uma hora com estas senhoras por uma estadia, digamos, um voucher de meia dúzia de noites no inferno das chamas e isso. No fundo, não são más pessoas, apenas têm necessidade de verbalizar para pensar, como há pessoas que têm de arrotar ou libertar a sua aerofagia para não ficarem mal dispostas (e têm um papel passado pelo médico a dizer que têm de fazer estas porcarias e tudo): o pensamento tem de lhes sair em palavra para se constituir em pensamento, primeiro a palavra e depois a coisa, mecanismo complexo – mas não daquela forma fantástica à Pedro Tamen «Disseste: o sol nasceu. / Foi verdadeiramente então que o Sol nasceu / e que nos habituámos todos a dizer / que o sol nasceu.» Nada disso, pelo contrário, passo a exemplificar. Elas entram na sala de trabalho a dizer «bem... eu agora havia de ir ali ao computador...» – e para esta gente o computador é sempre um local, um lugar distante, um lugar estranho [fica bem aludir a este filme de que até gosto bastante, sobretudo do final com o Just like honey…]. O computador é para elas um espaço onde é preciso ir, concepção que deve ser herdeira da ida à fonte, à eira, por aí, coisas dos antepassados. Ficou-lhes esse ir no sangue, nos genes, entranhado nalguma parte do corpo que não desconfigura nem desformata com o passar das gerações. Sentam-se, então, «ao computador» e continuam «ora, deixa cá ver, tenho isto gravado na pasta... ai! mas onde é que fulano me disse que gravou isto...? ó meu Deus, eu não tenho idade [tempo, saúde, aqui as razões variam mas são sempre da ordem do queixume] para isto...!».
É neste exacto momento que eu, de forma discreta, para não ferir susceptibilidades e porque tenho bom coração, ponho os fones nos ouvidos, só que o faço tão sub-repticiamente que daí a nada tenho-as a perguntar-me qualquer coisa, e se apanho uma mudança de música ou uma parte da música mais sossegada, não consigo fingir que não ouvi, até porque já fingi e foi pior, esse fingimento deu lugar a uma coreografia de acenos que ainda me deprimiu mais. Apercebem-se de que eu estava a ouvir música e dizem-me, invariavelmente, mas invariavelmente mesmo, eu seja ceguinha se não é isto, e por esta ordem: (i) «ó Clara, desculpa, não vi que estavas a ouvir música...», (ii) «...podes ajudar-me?», (iii) «eu não sei como é que consegues trabalhar com música, só eu tenho tanta dificuldade em concentrar-me...» e, finalmente, a cereja no bolo, (iv) «...e então com alguém a falar ao lado? aí é que não consigo fazer mesmo nada!». E dizem isto a sorrir, porra.
publicado por Clara Umbra às 12:12
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INTRO

DISCLAIMER

Este é um blogue de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Ou fruto da imaginação do(a) leitor(a) - o que é bom.

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