Sábado, 29 de Novembro de 2008

Nocturno (em C menor)

O último doente já saíra há uma boa meia-hora quando o Dr. Jorge V. se levantou, vestiu o sobretudo e abandonou o consultório. Durante esse tempo, encolhido na cadeira, tentou combater sem grande êxito a infinita preguiça de se levantar, sair e ir à procura da música que queria.

Pensa nos pacientes que recebeu, mas mistura-os com muitas outras coisas. Os pensamentos desordenados são improdutivos, mas este homem da ciência tem sentido uma crescente dificuldade em ordená-los. Na verdade, pode-se afirmar que ele pensa, sobretudo, no que foi pensando enquanto recebia esses pacientes, de forma que, agora, já não os recorda, a eles, com a mesma clareza com que se recorda a si, durante essas consultas. Sabe as músicas que identificou e as que falhou; sabe que sentiu uma certa comunhão com o paciente das onze horas; sabe que no final da manhã as árvores que rodeiam o hospital projectaram umas sombras curiosas no rosto de uma mulher. 

Sabe que, mais tarde, há-de estacionar em frente à sua casa e demorar outra meia-hora para sair.

Lembra-se, então, de fazer o que não sabe: telefonar à mulher a dar uma desculpa para regressar mais tarde a casa. 

Dirige-se para o centro da cidade, sem um destino definido.

Como saber para onde vai, se nem sabe onde está? O Dr. Jorge V. é um homem que acredita que Deus seja um jogador de dados. Não se importa. Essa ideia, que o assustou bastante no início, dá-lhe agora um imenso alívio.

(cont.)

 

publicado por Clara Umbra às 02:24
link do post | comentar | ver comentários (2)
Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Nocturno (parte B)

O Dr. Jorge V. é um homem cansado. Gostava de o poder descrever melhor, mas corria o risco de mentir. Ele num momento é uma coisa, no seguinte já é outra, estaria permanentemente no limiar da falha: quando o encontrasse, ele já não era o que eu tinha conseguido reter.

Enquanto ele observa a mulher que à sua frente olha fixamente o lápis sobre a mesa, nós observamo-lo a ele. Este ciclo de predadores e presas já o interessou de forma muito apaixonada; agora cansa-o como as demais coisas.

Foi assim com a música. Quem o tenha conhecido há vinte anos não acreditará que ele agora ouve música comercial na rádio e quer conhecer os êxitos do momento para vencer competições contra si próprio.

Foi assim também com a medicina. O tempo em que andava obstinadamente às voltas no seu quarto, entusiasmado com a resolução de um problema, não parece seu e essas voltas não pertencem ao passado do seu corpo.

O Dr. V. diz qualquer coisa à sua paciente mas fá-lo muito baixo. Faz-lhe uma pergunta.

Pensa, entretanto, que ela é bonita e que, estranhamente, não se sente atraído por ela.

Adivinha o início da música seguinte e pensa que aquela música nunca poderia ser cantada por esta mulher. E pensa, novamente, nas realidades paralelas. Ele, a paciente e a cantora, alinhados – três realidades que nunca se tocam por mais que se prolonguem no infinito. A matemática aplica-se à música, à medicina, mas não ao mundo interior, propõe, intimamente. Ele, a paciente e a cantora, a girar sobre si mesmos num espaço negro e silencioso. Se eles trocarem partes do corpo, entre si, enquanto giram nesse imenso céu nocturno - ele com uma perna da paciente, com um braço da cantora - continuam a ser quem são: médico, paciente e cantora? Se ele tomar o rosto da paciente, continua a ser o Dr. V. ou é uma mulher bonita? E se a paciente receber a voz da cantora, é a cantora?

(cont.)

publicado por Clara Umbra às 00:33
link do post | comentar | ver comentários (9)
Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Nocturno (parte A)

Por alguns segundos, o Dr. V. não ouve a mulher que tem à sua frente, mas a música que está a tocar no rádio que há anos ocupa a última prateleira de uma pequena mesa ao lado da sua secretária. Já é a segunda música, nesta manhã, que ele não consegue identificar durante os primeiros segundos e isso desagrada-lhe a ponto de o fazer franzir muito ligeiramente a sobrancelha.

É preciso perceber que o rádio está ali apenas para isso, para o Dr. V. exercitar a sua extraordinária capacidade de reconhecer uma música apenas pelos primeiros acordes. Aos pacientes, ouve-os no tempo restante, que é quase todo, mas é absolutamente necessário ouvir o início das músicas.

A mulher, porém, não se apercebe da contrariedade que fechou levemente a expressão do médico, absorvida que está no seu próprio mundo interior.

Dir-se-ia que os seus mundos interiores não se tocam, considera, vagarosamente, o Dr. V. Ela pensa obsessivamente em qualquer coisa que lhe aconteceu naquela manhã, mas que não consegue explicar; ele num CD que tem de procurar mal saia do consultório. Poderiam ficar toda a manhã ali, naquela situação, que os seus mundos nunca se tocariam, seriam realidades paralelas que só um puro acaso poderia fazer coincidir. Que tipo de acaso, ele não sabe. Poderiam descobrir que são, afinal, vizinhos, quando ele registasse a morada dela na receita, essa é uma hipótese. A partir dessa coincidência, poderiam começar a falar de si próprios, o que os fez ir morar para aquela zona da cidade ou qual o café que mais frequentam.

Assim que se apercebe do rumo dos seus pensamentos, o Dr. V. recolhe-os rapidamente e fixa, com um ar bondoso, a mulher que tem à sua frente. Este homem sabe há muito tempo que não há qualquer vantagem nesse encontro de mundos interiores, que caminham, como todos os outros, para a morte.

(cont.)

publicado por Clara Umbra às 00:33
link do post | comentar | ver comentários (10)
Segunda-feira, 10 de Novembro de 2008

Fisicamente (4ª e última parte)

O médico tem cerca de 50 anos, é alto e tem olhos azuis. No consultório há um rádio, já com alguns anos, que apanho no intervalo de duas músicas, de forma que, quando entro, não percebo imediatamente se foi o médico que disse alguma coisa, se foi o apresentador do programa. Ele está de cabeça baixa, sobre uns papéis que preenche diligentemente, o médico. Mal me olha.

Quando era miúda e tinha de me confessar, recordo-me de que, quando estava pouco conversadora, rezava para que me aparecesse um padre taciturno e rápido e, quando me apetecia conversar e expor as minhas dúvidas, ansiava por encontrar um padre falador; muitas vezes, porém, me trocavam as voltas, talvez até demasiadas vezes. Penso nisso agora, enquanto me sento diante dele, do médico, que espécie de médico será. Penso também na obsessão que sentia com a revisão mental dos pecados, antes da confissão, e o medo de me esquecer de algum - chegava a contá-los, como mnemónica – tal como pensei já hoje, vezes sem conta, em tudo o que fiz ontem.
Conto-lhe tudo. O que fiz, o que senti, tudo. Ele olha-me com um ar bondoso e compreensivo, como que a incitar-me a que continue. Continuo, de facto, mas não por ele. E concluo. Como esse lápis, digo, gostava de não existir, como esse lápis. Ele continua a olhar-me da mesma forma e faz-me uma pergunta absurda Ah, então gostava de morrer, é isso? Deseja morrer? Constato, sem surpresa, que ele não percebeu nado do que eu lhe disse, mas como num orgasmo, ou como perante a explicação paciente de um professor, eu finjo que sim, que senti, que compreendi, ou que fui compreendida – neste caso. Certo, vamos tratar disso, eu vou ajudá-la, isso vai passar, diz o médico à paciente que sou eu.
Saio do consultório, há pessoas cá fora que me vêem sair. É uma mulher, sem uma expressão visível – notam –, quem sai, e caminha pelo corredor; mas adiante – o corredor é longo - já parece um homem de cabelos encaracolados negros, mais adiante – naquela zona as árvores do parque do hospital projectam algumas sombras – um velho cego (pela errância do percurso), mais além, quase a dobrar a esquina do corredor, já só é possível avistar-se uma fina linha, como a de um lápis. Coisa estranha, todas as pessoas que estavam sentadas na sala de espera improvisada do corredor do hospital tiveram a sensação de terem visto a mulher que saiu do consultório ser, mais à frente, outras pessoas e outras coisas. Falarão de tudo isso ao médico que com um olhar paciente e atento as ouvirá e fingirá perceber tudo o que dizem. Elas fingirão que foram compreendidas e abandonarão o consultório correndo o meu risco.
publicado por Clara Umbra às 01:09
link do post | comentar | ver comentários (18)
Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Fisicamente (parte 3 e 1/8 - o inestimável contributo dos leitores)

«Parece-me um caso típico de focalização interna, a tender para o omnisciente. Consulte um bom narratologista.» – disse o sangue azul e eu não podia desperdiçar uma tirada destas.

publicado por Clara Umbra às 00:56
link do post | comentar | ver comentários (9)
Terça-feira, 4 de Novembro de 2008

Fisicamente (parte 3)

Agora já eu estou no meu carro e dirijo-me para o hospital. Continuo obcecada com a recordação meticulosa de tudo o que fiz ontem. Talvez devesse registar aquilo de que me vou lembrando, os médicos gostam destas coisas e tratam-nos mal quando somos pouco rigorosos.

Antes de me deitar e ler a Egoísta, o que fiz? Não saí de casa - eu saio pouco, aborreço-me quase sempre, não vale a pena. Também não esteve lá ninguém, era dia de semana. Não consigo ver com clareza o que fiz depois do jantar, mas subitamente recordo-me de uma história que ouvi, de manhã, e que pode ter interesse para o caso porque me impressionou muitíssimo. Foi a história de um homem de 83 anos que foi operado ao único olho de que via e, na recuperação, entregue aos cuidados da mulher, ficou cego porque ela, ao colocar-lhe as gotas, desequilibrou-se e perfurou-lhe essa vista com o bico do frasco do medicamento. É caso para dizer, não querendo de forma alguma brincar com o caso, que a história ficou a perfurar-me os pensamentos ao longo do dia e, numa das vezes em que fui à casa-de-banho, no trabalho, vi esse velho Tirésias por trás de mim, a caminhar ao meu encontro, com o braço estendido adiante do corpo, quase tocando as minhas costas. Não trazia as suas terríveis profecias, aproximava-se com um ar curioso e apenas me perguntava pela mulher, que fugira de casa no dia em que o cegou. O mais provável é que eu tenha imaginado isto enquanto dormia, embora me pareça tão real como o almoço no refeitório e as apostas relativamente ao vencedor das presidenciais americanas.

Estou no hospital e não faço a mínima ideia de onde me devo dirigir. Neurologia? Psiquiatria? Observo a folha que me pedem para preencher e onde já estão quase todos os meus dados. Felizmente, penso, ninguém se apercebe da minha aflição. Motivo da vinda às urgências? Indisposição severa, acabo por assinalar. O severa parece-me adequado.

[Mais, brevemente.]

publicado por Clara Umbra às 23:06
link do post | comentar | ver comentários (11)
Segunda-feira, 3 de Novembro de 2008

Fisicamente (parte 2 e 1/2)

Esse homem, cujo pesadelo era desencontrar-se de Deus por minutos, não me saiu da cabeça - recordo-me perfeitamente. Aparecia-me com a cara do Gonçalo M. Tavares, os cabelos negros revoltos numa loucura de lucidez forçada, mas, aí, já eu estaria provavelmente a dormir, ou a dormir o homem que agora era o escritor e daí os cabelos revoltos. Dormia meio dobrado, ele, sobre uma tábua de passar a ferro que ficava entalada num corredor. Houve um momento - juro - em que o homem tinha a estatura de uma criança e dava pequenos saltos perto de uma lareira, e Deus era o Pai Natal que se atrasava para uma redenção de embrulhos, mas aí já eu dormia, certamente.

Tentei ver-me dormir para perceber se nessa altura já aquilo tinha acontecido e vi-me deitada, perto de mim, de olhos fechados, a boca um pouco torcida mas sem expressão. Vi-me mexer-me, ouvi-me murmurar, vi-me dobrada no equilíbrio frágil da tábua, vi tudo isso e tudo vos conto, mas continuo sem saber se nessa altura já o meu rosto se tinha desencontrado de mim.

[a continuar]

publicado por Clara Umbra às 17:01
link do post | comentar | ver comentários (13)

INTRO

DISCLAIMER

Este é um blogue de ficção. Qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Ou fruto da imaginação do(a) leitor(a) - o que é bom.

DOWNBEAT

SEHNSUCHT

BACKYARD

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Dezembro 2015

Julho 2015

Maio 2015

Dezembro 2014

Setembro 2014

Fevereiro 2014

Dezembro 2013

Julho 2013

Novembro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

EMBERS

blogs SAPO

subscrever feeds

Sitiométrio

Add to Technorati Favorites