Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

Nocturno (parte B)

O Dr. Jorge V. é um homem cansado. Gostava de o poder descrever melhor, mas corria o risco de mentir. Ele num momento é uma coisa, no seguinte já é outra, estaria permanentemente no limiar da falha: quando o encontrasse, ele já não era o que eu tinha conseguido reter.

Enquanto ele observa a mulher que à sua frente olha fixamente o lápis sobre a mesa, nós observamo-lo a ele. Este ciclo de predadores e presas já o interessou de forma muito apaixonada; agora cansa-o como as demais coisas.

Foi assim com a música. Quem o tenha conhecido há vinte anos não acreditará que ele agora ouve música comercial na rádio e quer conhecer os êxitos do momento para vencer competições contra si próprio.

Foi assim também com a medicina. O tempo em que andava obstinadamente às voltas no seu quarto, entusiasmado com a resolução de um problema, não parece seu e essas voltas não pertencem ao passado do seu corpo.

O Dr. V. diz qualquer coisa à sua paciente mas fá-lo muito baixo. Faz-lhe uma pergunta.

Pensa, entretanto, que ela é bonita e que, estranhamente, não se sente atraído por ela.

Adivinha o início da música seguinte e pensa que aquela música nunca poderia ser cantada por esta mulher. E pensa, novamente, nas realidades paralelas. Ele, a paciente e a cantora, alinhados – três realidades que nunca se tocam por mais que se prolonguem no infinito. A matemática aplica-se à música, à medicina, mas não ao mundo interior, propõe, intimamente. Ele, a paciente e a cantora, a girar sobre si mesmos num espaço negro e silencioso. Se eles trocarem partes do corpo, entre si, enquanto giram nesse imenso céu nocturno - ele com uma perna da paciente, com um braço da cantora - continuam a ser quem são: médico, paciente e cantora? Se ele tomar o rosto da paciente, continua a ser o Dr. V. ou é uma mulher bonita? E se a paciente receber a voz da cantora, é a cantora?

(cont.)

publicado por Clara Umbra às 00:33
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9 comentários:
De Moyle a 28 de Novembro de 2008 às 08:44
haverá algum sortilégio no trigésimo terceiro minuto da madrugada? ou é o destino a fazer das suas (dele)?
De Clara Umbra a 28 de Novembro de 2008 às 15:07
:)
Puro acaso!
Não tinha reparado!
Thanks! :)
De Moyle a 28 de Novembro de 2008 às 17:17
ok, rotinas então:) que é precisamente o que me está a parecer deste médico. está demasiado rotinado nele mesmo:)
De Clara Umbra a 29 de Novembro de 2008 às 01:44
O roti-nado é semelhante ao roti-de-modéstia mas com mais uma volta, por exemplo flambejado, estilo tornedó?
De Anónimo a 29 de Novembro de 2008 às 14:38
nasceu roti, roti será, modéstia à parte... um roti, é sempre um roti!
De Clara Umbra a 29 de Novembro de 2008 às 16:39
Perante tanta assertividade, dizer o quê? Que 60.360
é o número de folhas que compõem o processo Casa Pia, que se encontra organizado em 254 volumes e conta com 528 apensos? Ora, ora... :)
De Moyle a 2 de Dezembro de 2008 às 00:14
flambejado sim, pode ser, mas com brandy Constantino. dá um toquezinho extremamente subtil ao nado:)
De sangue azul a 28 de Novembro de 2008 às 22:46
http://en.wikipedia.org/wiki/Uncertainty_principle
De Clara Umbra a 29 de Novembro de 2008 às 01:46
Como sabermos para onde vamos, se não sabemos onde estamos? :)

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