Quinta-feira, 20 de Março de 2008

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Se exceptuarmos uma meia dúzia de clássicos, poucas coisas me trazem a felicidade que me traz reencontrar um anel que julgava perdido.

Para se perceber bem a ideia, convém assinalar que um anel, para uma mulher, talvez assim suceda igualmente com os homens que apreciam e usam anéis, nunca é apenas um anel: carrega conotações variadas, profundas e vedadas à compreeensão de quem não é o proprietário estimativo do anel – foi oferecido pela pessoa x, foi comprado na companhia da pessoa y, foi usado no dia em que nos aconteceu qualquer coisa...

Por alguma razão insondável mas profundamente exasperante, é sempre esse anel especial que me costuma desaparecer. Normalmente, aloja-se no forro dos casacos, via bolso furado (que ninguém me ganha a furar bolsos de casacos), mas, até o descobrir, há um circuito de caixas, gavetas, carteiras, bolsos... que é preciso percorrer e cuja ronda me pode chegar a demorar semanas ou, em casos mais drásticos, meses, porque, em vez de ser feita com a ordem e a sistematicidade devidas às investigações, é orientada pela minha (pura e, nestas situações, ineficaz) intuição. O momento em que se dá o encontro, porém, é de uma felicidade inigualável, e foi o que me sucedeu hoje!

Já reparei, contudo, que, num mesmo dia, dois casos irmanados entre si pelo traço semântico descoberta, podem ser desirmanados quanto ao traço felicidade, e hoje, que encontrei o meu adorado anel, encontrei também um buraco numa meia – isto estando eu fora (e longe) de casa.

Não obstante os casos dos anéis e dos buracos, e já que falei em símbolo, o símbolo máximo da arte de aparecer ou reaparecer do nada, para mim – e para a minha irmã! –, há-de ser, sempre, a Gloria Estefan.

Há muitos anos atrás, em 89, 90 – por aí, nós as duas ouvimos na rádio que a Gloria Estefan tinha tido um acidente gravíssimo e tinha morrido – e não, não tínhamos fumado coisas esquisitas. Não a adorávamos, propriamente, mas simpatizávamos com ela, quem é que não simpatizava com a Gloria Estefan? Ela era muito simpatizável, muito fresca, muito mexida... de forma que devemos ter tido uma reacção do género booolas-que-cena! Qual não foi o nosso assombro, quando, decorridos um ou dois anos sobre o seu passamento, a vimos na televisão! Foi um choque tremendo, garanto-vos, e nunca, até hoje, acreditámos na história, que eles quiseram vender, de que ela tinha sobrevivido ao acidente e tinha estado internada num hospital durante uma catrefada de meses... Por favor! Se houvesse blogosfera na altura, ela não se tinha safado tão facilmente com uma história tão retorcida! Tanto mais que – prova derradeira para os que estão aí a torcer o nariz – o primeiro álbum dela, lançado anos antes, se chamava Renascer... Não me lixem, nada acontece por acaso! Ela morreu e ressuscitou, não me perguntem como. E nem sequer foi a primeira, como bem sabem.

Em conclusão, foi com esta história da Glória Estefan que aprendi, muito nova, o que hoje comprovo com os anéis e os buracos das meias: há coisas que aparecem na e desaparecem da minha vida segundo mecanismos que escapam à minha compreensão... Suspeito que sejam da parte masculina do universo.

publicado por Clara Umbra às 18:29
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5 comentários:
De Moyle a 21 de Março de 2008 às 03:59
isto é uma autênctica epopeia. anéis, buracos, regressos e muita tensão psicológica... eu não quero ser repetitivo mas isto é um senhor dos anéis brought to life.
De Clara Umbra a 21 de Março de 2008 às 14:02
Tu estás a brincar, mas olha que eu já conheci um professor de Linguística que chegava a conclusões dessas. Entusiasmado com as novas tecnologias que na altura entravam na sua vida, ele pedia aos alunos dum curso de mestrado que "passassem um scanner" [sic] nas obras literárias, aplicassem um determinado programa informático a esse corpus literário e chegassem a conclusões... Os resultados, não raro, eram desse género: vinte vezes a palavra anel+quinze vezes a palavra buraco= senhor dos anéis. Só não era uma epopeia, ora era uma comédia, ora uma tragédia, dependia dos ânimos, que, como se sabe, são volúveis.

De Moyle a 21 de Março de 2008 às 18:10
devem ter sido aulas geniais[sobretudo para alguém que estivesse com vontade de se pós-graduar em estudos cabalísticos, que os judeus é que passam a vida à procura dessas correspondências e tretas do género].
para caracterizar melhor a situação se calhar seria melhor um muito português comprometimento entre as duas, é que eu tenho para mim que foi um português que inventou a tragicomédia por não se conseguir decidir entre um dos dois.
De Moyle a 21 de Março de 2008 às 18:11
gosto mesmo muito quando alguém começa uma frase por «Tu estás a brincar, mas olha que...» depois de eu dizer alguma coisa. não sei bem explicar porquê mas acho mesmo piada. parvoíces, pronto.
De Humana Estúpida a 22 de Março de 2008 às 17:21
Já encontrei um anel e fiquei tão triste. Não consegui deitá-lo fora mesmo assim

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